Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

13 outubro 2013

Açaí

Degustação comparativa: Açaí + Guaraná Açaí Sport DeMarchi; e Açaí com Guaraná Tribal Açaí Orgânico Sambazon.

Parecem ser marcas de qualidade, facilmente encontráveis no Pão de Açúcar. Os ingredientes são semelhantes, o Tribal Açaí leva vantagem por conter menos ingredientes que só a indústria de alimentos sabe o que são e ninguém sabe que efeito têm. Se você por cautela ou ideologia evita produtos químicos com nome impronunciável, prefira a Sambazon, uma empresa nova californiana-brasileira.

O Açaí Sport tem um sabor mais forte de açaí, e uma consistência um pouquinho mais macia. É melhor para comer direto, por exemplo em cima de cereal granola. Ambos podem ser apreciados sem bater no liquidificador. 

A informação nutricional deles é incompatível: as proporções de carboidratos, gordura, e proteínas são inconsistentes. Descontando a possibilidade remota de que algum dos aditivos tenha muita proteína ou gordura, ao menos um dos rótulos está errado. Já o conteúdo energético sugere que o Açaí Tribal contém mais água, o que é compatível com a análise feita usando os sofisticadíssimos sensores físicos e químicos da minha língua. (A contagem de calorias é uma superstição imbecil sem qualquer relação com o processo biológico de alimentação, mas serve para indicar, ou confirmar, o que entra numa comida industrial.)

Minha preferência é pelo produto da DeMarchi, tradicional indústria de alimentos paulista. Numa próxima oportunidade testo outras marcas.

12 outubro 2013

Greve recursiva

Como ocorre a cada primavera, os bancários passaram 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve...

Segundo o sindicato, para vencer a intransigência dos bancos foi fundamental a mobilização da categoria, que esse ano estava lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve...

Os objetivos da greve foram plenamente atingidos, com o pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve...

O prefeito errou

Haddad errou ao suspender a inspeção ambiental veicular. A inspeção é uma questão de saúde pública, indispensável numa cidade como S Paulo, com tantos carros produzindo poluição e se envolvendo em acidentes. É uma atitude esperada no PT, partido que consistentemente privilegia os interesses da grande indústria, dos sindicatos, dos poluidores, e dos proprietários de automóveis em detrimento da população em geral. Com os resultados que estão aí parados no trânsito para qualquer um ver.

O fim da inspeção não vai ganhar eleitores entre a assim-chamada direita lacerdista, a mais lacrimosa quanto à infração de sua liberdade absoluta de empestear o ar e infernizar as ruas da nossa cidade. Mas vai atrair a simpatia do conservadorismo profundo, das classes pouco generosas que só têm pedestres, ciclistas, e sem-viatura - jovens, mulheres, e idosos - aos quais oprimir. Quem vai notar a desproporção entre homens e mulheres nos carros e nos ônibus? Certamente não a esquerda, porque o transporte individual é direito sagrado para os bacharéis independentemente de gênero, e a segregação de gênero no transporte é coisa de gente pequena.

A inspeção vai voltar - como mostra o exemplo de todos os países ricos que se respeitam - mas com atraso, qualidade inferior e custo muito maior. Pode anotar. A oposição do PT a tudo que não foi inventado por eles vai repetir o trabalho do Cristóvão Buarque, que destruiu tudo o que foi feito pelo ministro Paulo Renato na educação, e depois teve que ser refeito pelo próprio Fernando Haddad. A sorte do PT é que o Lula não se importava com educação mas teve o bom senso de não deixar o PT acabar com a bolsa escola criada no mesmo governo Fernando Henrique. Porque o Provão é tão indispensável para a educação como a inspeção é para a saúde - numa sociedade grande e complexa a liberdade individual tem que ser regulamentada quando causa danos excessivos ao bem estar coletivo - a liberdade de poluir o ar tanto como a liberdade de poluir as mentes dos universitários com diplomas cocô.

Vitória dos interesses estreitos do complexo militar-automobilístico, como a administração Cristóvão foi uma vitória do complexo cartorial-cursinhístico. De curta duração, mas com grandes prejuízos para a sociedade. Haddad errou ao prometer e errou novamente ao cumprir a promessa de campanha.

10 outubro 2013

Relatório de viagem a Ribeirão Preto

Estive na Usp em Ribeirão Preto dia 9 de outubro para apresentar poster no Simpósio Aprender com Cultura e Extensão. Não pedi afastamento publicado no diário oficial, como muitos dizem que seria necessário embora absurdo, afinal passei o dia no campus da própria universidade. Então não preciso fazer um relatório oficial que ninguém vai ler. No lugar escrevo esse relatório informal que você está lendo.

Os bolsistas não podiam ir por motivo de provas, e tive a escolha entre apresentar o trabalho e enviar um ofício justificando a ausência. Ofício, carimbo, reclamação, correção, tudo isso desperdiça esforços que poderiam ser melhor empregados. A Poli generosamente providenciou uma perua para levar os estudantes, e escolhi a alternativa que gastava menos tempo.

A viagem de ida e volta é longa. Não é muito eficiente realizar o evento num lugar distante de 90% da comunidade. Mas aproveitei para visitar a professora Elenice Mouro Varanda, que me mostrou o remanescente da floresta da Usp de Ribeirão. Um belo projeto de reflorestamento, que infelizmente foi vítima de um incêndio que destruiu uma boa parte das árvores. Não sei precisar quanto do dano pode ser atribuído ao azares da natureza, às mudanças climáticas regionais ligadas ao desmatamento e à monocultura no norte paulista, e ao aquecimento global que tem trazido invernos quentes e secos à região. Infelizmente os danos foram potencializados pela negligência dos prefeitos da Usp de Ribeirão, que apesar de repetidos avisos foram relapsos em tomar mesmo as medidas mais elementares para proteger o patrimônio público e ambiental contra os riscos do fogo. De alguma forma ou outra parte da floresta continua viva, embora a perda ambiental e científica tenha sido irreparável.

A apresentação dos posters correu bem. Estando lá, ajudei um pouco nas avaliações de trabalhos de outras unidades. Os que vi estavam muito bons, com alguns para além de excelentes. Parabéns a estudantes e orientadores em geral!

Sempre é uma boa oportunidade ouvir estudantes em uma situação informal, dentro de uma perua atravessando o interior de nosso estado. O que concluo?

Ainda faltam oportunidades para maior integração entre estudantes de diversas áreas. Existem as festas, que fazem parte da vida social mas não são eventos - como eu diria? - de conteúdo intelectual muito denso. Ações recomendadas: A universidade deveria se envolver mais em vez de deixar toda a integração entre estudantes a cargo das agremiações estudantis. Idealmente, essa integração deveria se fazer através do ensino e da pesquisa - temos que nos transformar numa universidade de fato, e deixar de pensar na graduação na Usp como um conjunto de cursos e departamentos não comunicantes. Uma maior presença de professores em eventos estudantis também me parece recomendável.

O apoio econômico aos estudantes ainda deixa a desejar. Alguns estudantes não recebem recursos suficientes da família - seja por absoluta falta de condições, seja por expectativas culturais de que ao chegarem na universidade deveriam se sustentar. Eles têm que procurar empregos, usando muito tempo que não fica disponível para os estudos. Para os politécnicos, a carga horária se torna excessiva. Ações recomendadas: A universidade deve apoiar mais os estudantes com bolsas e moradias dentro do campus, e a Poli deve pensar mais firmemente se o número de disciplinas em cada semestre é compatível com o bom aproveitamento dos estudos.

Em muitas disciplinas os estudantes percebem um descompasso entre as informações apresentadas em sala de aula, os conteúdos exigidos em provas, e a realidade da ciência e tecnologia. Eles usam as palavras "teoria", "exercícios", e "prática" para designar esses aspectos, mas ao meu ver não são termos adequados. O excesso de aulas "teóricas", por natureza pouco interativas, e de avaliações através de provas - muitas vezes provas sem consulta, na era do Google!!!!, tendem a afastar os estudantes das aulas e empurrá-los para as coleções de provas do anos anteriores e para estágios mesmo que de qualidade pedagógica duvidosa. Ações recomendadas: sermos mais criativos e flexíveis quanto a formas de trabalho em sala de aula e métodos de avaliação.

06 outubro 2013

O ovo

O ovo é o injustiçado da culinária. Para os vegetarianos, um produto de origem animal. Para os carnívoros, não chegou a estar vivo para ser morto, quase um derivado da soja. Barato, considerado comida de pobre. Fácil de preparar, fica para quem não tem serviçais. Sofreu um ataque rancoroso do ramo mais obscurantista da pseudo-ciência acadêmica, o nutricionismo. Daquela superstição cujo conceito fundamental, a "caloria", não traz a menor relação com a alimentação - que inventou a gordura vegetal hidrogenada para substituir a manteiga, a sacarina para acabar com o açúcar. Ovo é neutro, pareve, não é nem carne, nem leite, nem vegetal.

O ovo é saboroso, barato, e kosher.

04 outubro 2013

Poleiro de orquestra

Não sei o que é mais inacreditável: a genialidade do Beethoven; o talento do Nelson Freire e da regente e músicos da orquestra do estado; ou pagar 14 réis pelo ingresso no melhor lugar do teatro meia hora antes do concerto.

É que a Sala S Paulo, na estação Sorocabana, tem um poleiro atrás da orquestra, no setor que eles chamam "coro". Você fica colado aos músicos, olhando para a regente, dá para acompanhar a partitura dos trombones. É o melhor lugar, quem como eu mal sabe tocar vitrola quase se convence que entende de música.

Os ingressos no poleiro custam 1/5 do preço, e mesmo assim não esgotam. Porque será? A explicação mais pedestre é falta de hábito dos frequentadores. Não é convincente: a sala já não é nova, e a diferença de preço seria suficiente para mudar os hábitos.

Uma explicação pseudocientífica seria a acústica. Verdade que o piano abre para o lado da frente, e os metais ficam amplificados para quem senta atrás. Mas Beethoven não carrega nos metais, no Prokofiev os trombones até ajudam, e a arte do Nelson Freire é maior que a tampa do piano. Improvável que muita gente note a diferença entre sentar num lado ou outro. Quem tem esse discernimento certamente vai preferir ver a orquestra do ponto de vista dos músicos.

Uma melhor explicação é social. O frequentador dos concertos quer ser visto; não quer entrar pela porta dos fundos, de serviço, sentar junto com os músicos, quasi-funcionários. E teme que a localização pouco usual seja menos prestigiosa, denuncie falta de sofisticação, talvez até por não confiar no próprio discernimento acústico.

A imagem da orquestra cercada pela audiência lembra a arquitetura de uma sinagoga sefaradi. Não considero provável que seja um receio atávico da inquisição que afasta o apreciador da boa música de uma barganha, mas nunca se sabe.

Fica a dica para quem não receia perder casta nem a acusação de cripto-judaísmo: vá ao concerto, sai mais barato que o cinema, e tem metrô.

03 outubro 2013

Roubaram as rodas do ônibus

Ou será que o fantasma do Quércia acabou com a linha Metrô V Madalena-Rio Pequeno, que me trazia para a Usp e estava sempre cheio? Fui olhar hoje de manhã, e o ponto sumiu. O site da Sptrans dá informações contraditórias e incorretas sobre a linha. A impressão é que foi cancelada sem aviso. Melhor, vim a pé. São só uns 30 minutos até entrar no campus.

Só que o transporte coletivo interno na Usp piorou muito em alguns aspectos, apesar do grande gasto em novos ônibus e linhas, ou até por causa dele. Devido ao trajeto longo, redundante, e irracional, os ônibus estão sempre cheios em alguns trechos e tem poucos usuários em outros. Vindo da ponte sobre o Rio Pinheiros, onde sobem muitos passageiros por causa da estação de trem do outro lado do rio, agora só há a opção da linha circular 1 - a linha circular 2 da Sptrans quando passa no ponto da estação tem sentido para fora Usp, e a linha circular 2 interna está com frequência e número de carros muito reduzida.

A lotação dos ônibus é desnecessária, porque é causada pelo mau traçado dos trajetos e não pelo excesso de passageiros. Para agravar o problema, o embarque e desembarque nos novos ônibus é muito lento, porque os passageiros precisam passar pelo chiqueirinho janista e pela catraca, mesmo que seja só para passar o cartão Usp que dá direito a passagem gratuita. Nos circulares internos antigos, inclusive nos poucos que ainda circulam, a entrada e saída é livre, tornando o embarque muito mais rápido. Os novos, devido aos atrasos no embarque, tendem a passar todos juntos, deixando longos intervalos sem serviço.

Quer dizer, para cobrar a passagem da meia dúzia de usuários que não é da Usp, torna-se necessário aumentar muito o número de ônibus para compensar o tempo perdido com o embarque.

Não adianta só gastar dinheiro público. É preciso melhor engenharia e mais competência do que estão sendo demonstrados na administração da universidade.

01 outubro 2013

Imagine o PT com maioria no congresso e um presidente tucano

Para entender a paralisação do governo dos Estados Unidos: imagine o PT com maioria no congresso e um presidente tucano.

O que o PT faria? Possivelmente, diria "NÃO", até paralisar tudo. Porque isso não acontece no Brasil? Porque uma boa fração do congresso são partidos e políticos não-ideológicos, sem interesse em que as coisas deixem de funcionar. A turma leninista, do quanto pior melhor, é reduzida - setores do PT, os partidos mais à esquerda, e talvez algum grupo de direita.

Nos Estados Unidos, os leninistas controlam o Partido Republicano. A liderança do partido impede as votações - porque se o congresso votasse, as propostas do presidente passariam, com apoio do Partido Democrata e da parte patriota da oposição.

Pense nisso na próxima vez que alguém reclamar que os partidos no Brasil não são ideológicos.

25 setembro 2013

Festival de falácias

Um dos piores artigos que li, sobre esse tema ou qq outro. Uma aula de como não argumentar, um bestiário de non-sequitur. Só que deu no NYTimes, e tem gente citando como se o artigo tivesse algum significado qualquer. Não tem.

Não estou falando do conteúdo, mas da argumentação, que é fraquíssima e inaceitável num debate sério. Vale a pena analisar para expor os erros. Comentários abaixo, cada um seguindo citação de parte de cada parágrafo.

"THE last three decades are littered with the carcasses ... a long line of well-meaning American diplomats "
Hipérbole vazia.

"True believers in the two-state solution see absolutely no hope elsewhere. "
Provavelmente porque não há. A conferir.

"It’s like 1975 all over again, when the Spanish dictator Francisco Franco fell into a coma. "
Irrelevante para a discussão.

"True, some comas miraculously end."
Vazio e irrelevante para o assunto sob discussão.

"Strong Islamist trends make a fundamentalist Palestine more likely than a small state under a secular government. The disappearance of Israel as a Zionist project, "
Afirmações fortes, sem embasamento. Talvez sejam verdades; seria necessário argumentar.

"All sides have reasons to cling to this illusion. "
Dependente da suposição, não fundamentada, de que é uma ilusão.

"seems to reflect the sentiments of the Jewish Israeli majority ... camouflages relentless efforts to expand Israel’s territory into the West Bank."
Afirmação correta, seguida de acusação de que o sentimento é falso, esta sem embasamento.

"American politicians need the two-state slogan "
Dependente de que é apenas um slogan.

"Finally, the “peace process” industry "
Insinuação maldosa.

"the idea of two states between the Jordan River and the Mediterranean Sea all but disappeared from public consciousness between 1948 and 1967."
Será? Mesmo com esse hiato, talvez imaginário, de 19 anos, é uma ideia duradoura.

"But failures of leadership in the face of tremendous pressures "
Correto, mas milita contra o argumento. Falhas de liderança teriam dado resultados ruins com outras alternativas.

"Those who assume that Israel will always exist as a Zionist project should consider how quickly the Soviet, Pahlavi Iranian, apartheid South African, Baathist Iraqi and Yugoslavian states unraveled, " 
Comparações irrelevantes, e que confundem nação com regime político.

"In all these cases, presumptions about what was “impossible” "
Qualquer regime muda inesperadamente. Outros permanecem. Lição para o caso de Israel em particular: nenhuma.

"JUST as a balloon filled gradually with air bursts " 
Raciocínio por metáfora. Argumento imbecil.

"Britain ruled Ireland for centuries, ... until the establishment of an independent Ireland. "
Por analogia, 2 estados é razoável.

"France ruled Algeria for 130 years ... in 1959, Algeria soon became independent, "
Novamente, o exemplo destrói o argumento do autor.

"Within a few years, both the Soviet Union and the Communist regime were gone."
Irrelevante, e mais uma vez confunde nação com governo.

"as irrational as rearranging deck chairs on the Titanic "
Raciocínio por metáforas mais uma vez. Não dava para usar uma falácia nova?

"The two-state slogan now serves as a comforting blindfold of entirely contradictory fantasies. "
Diplomacia serve para conciliar posições opostas. Desqualificar a diplomacia usando palavras com sentido carregado (fantasia, slogan, blindfold) não é válido.

"We are engaged in negotiations to nowhere. "
Como sabemos disso, exceto por ser uma afirmação do autor? Achismo puro.

"I was a 30-year-old assistant professor, on leave from Dartmouth at the State Department’... It was clear to me that "
O que isso mostra?

"I was summoned to the office of a high-ranking diplomat, who was then one of the State Department’s most powerful advocates for the negotiations."
Apelo à autoridade, falácia elementar.

"“Are you,” he asked me, “personally so sure of your analysis “Yes, sir,” I answered, “I am.”"
Isso é uma análise?

"Had America ... then it might .. It could have ... We could have had "
Coulda woulda oughta mighta hafta. Argumento contrafactual. Irrelevante. 

"negotiations are phony; "
Só temos a afirmação do autor para confiar.

"The end of the 1967 Green Line as a demarcation of potential Israeli "
O que a linha do armistício de 1948, que durou 19 anos, tem de tão fundamental? O artigo não explica.

"Israel may no longer exist as the Jewish and democratic vision ... may not ... a real Palestinian state. ... ruthless oppression, mass mobilization, riots, brutality, terror, "
Parece bastante ruim, essa alternativa que ele prefere.

"Israel’s ... nuclear weapons arsenal "
Irrelevante para o tema do artigo. 

"the chimera of a negotiated two-state solution ... the two-state-fantasy blindfolds "
Mais uma vez, tentando desqualificar o argumento usando xingamentos.

"...secular Palestinians in Israel and the West Bank could ally with Tel Aviv’s post-Zionists, non-Jewish Russian-speaking immigrants, foreign workers and global-village Israeli entrepreneurs. "
Agora quem está se alongando em fantasias é o autor.

"It remains possible ... But the pretense that negotiations under the slogan ...a single state might ... avoiding truly catastrophic"
O artigo finaliza com a mesma combinação de insinuação, achismo, e contradições. Paro aqui.

20 setembro 2013

Debate dos candidatos a reitor da Usp

Entre aula e reunião, assisti uma parte do debate na Poli. Impressões das falas que ouvi:

Só pude assistir pouco da fala da professora Maria Arminda. A parte que ouvi, via IPTV, foi uma discussão acadêmica sobre a estrutura do poder central na universidade, especialmente sobre escolha de nomes para os altos cargos. O auto-conhecimento é importante para a universidade, mas dentro dela o processo de eleição é um assunto menor, e as implicações da parte que ouvi para as ações da reitoria não ficaram claras. (Adicionalmente, não me parece que o poder na Usp siga a fria razão de estado da burocra weberiana, nem a tirania absurda da burocra kafkiana. O referencial teórico apropriado é a ação mais ou menos lógica do estamento descrito por Faoro, somado à cordialidade brasileira entre membros e grupos de donos do poder.)

O professor Hélio Cruz é o que fala melhor e mais claramente. Só que a preocupação dele é essencialmente administrativa e de continuação das políticas gerenciais atuais. Falou muito pouco sobre ensino e pesquisa. Alíneas de manutenção predial podem ser importantes, mas é difícil sentir entusiasmo quando as atividades fundamentais da universidade não são mencionadas.

Não gostei da apresentação do professor Zago. Foram diversos pontos pouco específicos, generalidades mais ou menos consensuais, e também com excesso de ênfase em temas periféricos. Reforma disso, planos daquilo, estrutura de poder, melhorias, aperfeiçoamentos, qualidade, muitas palavras chave cobrindo quase todos os temas, mas sem priorizar prioridades prioritárias. A forma de discurso dele foi combativa, quase agressiva com dedo em riste como político de novela de televisão, só que situacionista, no conteúdo pouco crítica, a favor do status quo.

Não ficaram muito claras, na parte que consegui assistir, quais as propostas do professor Vahan.

O professor Cardoso enfatizou a importância do ensino de graduação, e especialmente da integração e multidisciplinaridade. É a ênfase correta. Como ele expôs, quem quer fazer pesquisa tem liberdade e recursos, mas o ensino sofre muito com barreiras impostas por institutos e departamentos. Ele não entrou em excesso de detalhes sobre a administração, mas reforçou que é indispensável mudança vigorosa para fazer a universidade funcionar. Só dele e de mais ninguém ouvi qualquer crítica à administração atual, na qual o professor Cardoso vê falta de transparência e excesso de centralização.

O ponto de vista do professor Cardoso foi o mais generoso, e mais relevante para a comunidade universitária.

18 setembro 2013

Currículo de engenharia elétrica na Poli, 1

Em todas as provas que dou o uso de calculadoras, computadores, e internet é livre, bem como todas as formas de consulta. É uma decisão minha de alguns anos atrás, mas não exatamente uma política nova: talvez eu tenha dado uma prova sem consulta antes da www chegar ao Brasil, mas não lembro mais.

http://fmpait.blogspot.com.br/2013/08/uso-da-internet-livre-em-provas.html

Quanto às optativas, o problema que criamos é que a elétrica está prevendo 8 disciplinas obrigatórias por semestre nos 3 primeiros anos. Isso foi atingido sem romper o limite de 28 horas de aula semanais através de uma engenharia de grade horária que criou disciplinas com 2 ou 3 créditos. Mas como os alunos sabem cada disciplina é uma disciplina, com suas exigências, provas, e matéria. Vai sobrar muito pouco espaço mental ou tempo de estudo para optativas, para matérias que relacionam diferentes áreas da Poli, ou matérias que estimulam a criatividade - Práticas II por exemplo será eliminada.

A implementação proposta da EC3 na elétrica se choca de frente com a proposta da EC3. Essa em grande parte me parece coincidir com o desejo dos alunos conforme expresso em sua mensagem. Os únicos argumentos que ouvi a favor da implementação da EC3 proposta para a elétrica são os seguintes: 1 - ela atende aos interesses dos departamentos e dos laboratórios de ocuparem espaço na carga horária dos alunos; 2 - a proposta já foi aprovada e portanto não pode ser modificada.

Esses argumentos são muito fracos. Eu acho que a implementação da EC3 proposta para os 3 primeiros anos de engenharia elétrica é um desastre completo e que portanto ela deveria ser abandonada em favor da proposta original da EC3: a cada semestre 7 matérias de 4 créditos cada, sendo uma optativa livre a partir do 2o semestre. É necessário reconhecer que as discussões na elétrica criaram uma monstruosidade e jogar fora o resultado, eliminando a proliferação de matérias e detalhamento de conteúdos que vão inevitavelmente ter resultados contraproducentes. Um problema prático adicional é que as meias disciplinas e as disciplinas com 3/4 de carga horária vão tornar os horários individuais de estudantes que repetirem alguma matérias ou tentarem fazer alguma optativa um completo pesadelo.

http://fmpait.blogspot.com.br/2013/05/horarios-na-poli.html

Estou respondendo a todos por desencargo de consciência: assim como a implementação da EC3 está sendo encaminhada na elétrica o curso vai ser muito problemático e pouco atraente, e não vai satisfazer os anseios e demandas dos estudantes, mesmo com os melhores esforços dos professores responsáveis por cada disciplina. Se as coisas forem realmente feitas da forma como estão sendo encaminhadas, não quero ter na minha consciência a culpa de não ter dado minha opinião, seja por timidez ou por receio de ofender alguém. Posso não ter tido competência para expor meus argumentos de forma convincente aos colegas, mas não assumo a culpa da omissão, indiferença e indolência.

(...)

Verdade, as discussões foram abertas e o processo foi conduzido de forma transparente e adequada. Porém o resultado é ruim. Arrisco dizer que o excesso de atenção aos conteúdos das disciplinas não facilitou resistir à tentação de micro-administrar as atividades didáticas de cada aluno, mas outras interpretações são possíveis.

Não é importante tentar explicar o que deu errado, nem defender a condução do processo. O importante é o que fazer agora.

Há 2 alternativas. Uma é reconhecer que, apesar da boa condução do processo, o currículo não atende aos objetivos. Podemos aproveitar os trabalhos exaustivos sobre os conteúdos específicos de cada disciplina, mas é necessário descartar a grade curricular inchada e inflexível.

A outra é se apegar com orgulho ao resultado do processo e do nosso trabalho, implementar o currículo da forma como foi proposto, e conviver com um curso problemático por muitos anos. (O nome disso em economês é a falácia dos custos irrecuperáveis, sunk cost fallacy, exemplificada pela frase "não podemos deixar de casar apesar de não gostarmos um do outro depois de tudo que já pagamos pela festa do casamento".) Nesse caso vamos esperar os grandes e completamente previsíveis problemas se manifestarem para depois acionar o lento processo de mudanças. Daí a cada ano vamos tentar fazer pequenas mudanças em cada disciplina para resolver um problema que é causado não pela condução de cada disciplina individualmente mas pela estrutura incorreta na qual elas foram encaixadas. Não vai dar certo.

Essa 2a alternativa convém para quem fica melindrado com opiniões divergentes e evita conflitos com os desejos de laboratórios ocuparem espaços, mas é a pior para estudantes e para a universidade. Podemos escolher.

(28 e 29 agosto 2013)

Currículo de engenharia elétrica na Poli, 2

A análise do Raphael Chinchilla é brilhante!

Primeiro, ele indica a fonte dos problemas que estão sendo notados agora: o excesso de ênfase nas aulas como processo de transmissão de conteúdo. Essa é apenas uma das funções da aula, e a aula não é a única forma de aprendizado.

Segundo, ele reconhece que, apesar dos grandes esforços dos professores, os currículos que estão sendo propostos não têm muita chance de dar certo, porque a estrutura curricular de engenharia elétrica está prevendo um excesso de disciplinas obrigatórias - 8 na maioria dos semestres. Dessa forma a atenção dos alunos tem que se dividir em 8 matérias, e fazer algumas delas caberem em 2 ou 3 horas de aula por semana só vai piorar as coisas, ou pelo enfraquecimento o conteúdo, ou pela falta de tempo para a compreensão.

Finalmente, ele traz a perspectiva dos estudantes e reforça a centralidade do assunto circuitos, que não é difícil mas é sutil, e exige uma compreensão teórica mais madura do que outras matérias. Talvez justamente por isso o laboratório acabe sendo pior avaliado do que outras matérias, igualmente importantes, mas que não fazem a mesma exigência de maturidade.

Gostaria de acrescentar que na minha opinião o mesmo problema que estamos diagnosticando em Laboratório de Eletricidade vai aparecer, de forma menos óbvia e imediata mas igualmente previsível, em muitas outras disciplinas: a diluição da dedicação dos alunos, causada pelo excesso de disciplinas obrigatórias e de conteúdos em cada semestre. Cada disciplina tem suas provas, suas avaliações, seus trabalhos, seus estilos, suas notações, e o excesso de matéria simultânea vai prejudicar o aprendizado, seja pela diminuição da transmissão de interesse por parte do professor, seja pela diminuição da absorção de conteúdo por parte dos alunos. O desconforto está aparecendo em primeiro lugar com respeito a esses Labs por causa da centralidade do assunto circuitos dentro do curso. Um problema ainda maior é que o excesso de disciplinas diminui as oportunidades para estudos, projetos e investigações fora da camisa-de-força curricular.

Ainda dá para corrigir esse erro, e a correção não vai ser feita nem pelo desmerecimento do cuidadoso trabalho dos docentes responsáveis pelas disciplinas, nem pela desqualificação das críticas bem embasadas de quem aponta o problema. Temos que rever os parâmetros que produziram um currículo engessado: excesso de ênfase em conteúdo transmitido em sala de aula, falta de apreciação da maturidade intelectual dos estudantes politécnicos, e insuficiente consideração da importância da motivação e curiosidade intelectual deles.

A escolha é nossa.

(18 setembro 2013)

17 setembro 2013

Após fracasso, governo desiste do PAC

Uma parte eu entendi, lendo esse artigo no Estadão e esse outro: não houve interessados nos leilões de concessão de rodovias federais. Também entendi que 70% dos investimentos viriam da União, e metade dos 30% restantes de organizações quasi-estatais. O que surpreendeu foi ler que a execução das obras também seria feita pelo governo federal, através do DNIT, um departamento do ministério de transportes que até onde dá para ler na web nunca chegou a fazer obra nenhuma.

Seria uma forma de privatização ao contrário: o governo executa a obra, com dinheiro público, e as empresas privadas fazem as desapropriações e depois arcam com o prejuízo. Engraçado, né?

Fora dessa parte de rodovias, foi feita alguma coisa com os 500 mil contos do PAC? Na rede só tem a previsão de gastos para o futuro, mas o futuro já virou passado e não sei se o dinheiro foi gasto nem se alguma coisa foi feita. Talvez seja minha ignorância, talvez eu não tenha percebido quanta coisa boa foi feita porque a única obra do PAC em S Paulo foi cancelar a construção do Terminal 3 do aeroporto de Cumbica e renomear como permanente a estrutura provisória do Terminal 4, cuja demolição estava planejada - era um precário galpão de carga da falida Vasp que continua com uso muito limitado.

12 setembro 2013

Orquestra Sinfônica da USP

Faz tempo que ao receber correspondência da Osusp tenho notado a ausência da regente Lígia Amadio. Além de fazer um excelente trabalho musical, gosto de acompanhar a regência dela porque foi da minha turma na Escola Politécnica, sim, uma regente engenheira.

Hoje fui verificar a razão da ausência e o Google me responde: ano passado a maestra foi dispensada sem qualquer explicação pela reitoria e pró-reitoria. Na falta de qualquer comunicação oficial à comunidade da Usp e dos fãs da música de concerto, especula-se que a motivação tenha sido sucesso em excesso. Lamentável.

Fico feliz em saber que a maestra continua sua carreira musical sob aplausos, infelizmente fora do Brasil e da nossa universidade.

"This just don't sound like no samba song"

Last night I went to the samba bar,
Hear my good friend play the flute.
Wanted to write some words for the singer,
Ended up with a country rhyme.

Dreamt I drove the green old bug,
Filling up on one-ninety proof.
Up and down the Andes, by the Salty Flats,
Through Texas-size ranches, and the rainforest too.
Sorry, Susanna, don't get me wrong,
This just don't sound like no samba song.

Ferried along Darien, on to the Chihuahua desert,
Passed the island prison and the pipeweed fields.
Crossed the border at the Rio Grande,
Drove straight to the New England Pike.
Got no Ivy League, no six-figure job,
Just came up North with the love I got.

We write back and forth, we speak on the phone,
I ask of the girls, we talk of rent and flights.
I saw you on the iMac with the new iSight.
Just wanted to say I love you.
Now hit the Pan Am Road, Beetle, real quick,
Got a class to teach in about a week.

(Country rhyme, dated 2005. To be read with a twang.)

10 setembro 2013

O conceito burguês de causalidade

O sempre instrutivo Vladimir Safatle escreve na Folha: "...entre 1950 e 1971, o PIB chileno cresceu, em média, 2% ao ano. Já entre 1972 e 1983, ele recuou (sim, recuou) 1,1%". De fato, Allende, que foi presidente de 1970 a 1973, meteu o país numa crise da qual ele só saiu anos depois. De alguma forma, na análise do excelentíssimo uspiano o desastre econômico que solapou o apoio à democracia é um mérito do governo Allende, e o culpado é a ditadura que o sucedeu.

O ditador Pinochet fez muita coisa ruim. A depressão iniciada antes do golpe não foi uma delas. Alguém precisa explicar ao professor de filosofia o conceito burguês de causalidade.

28 agosto 2013

Uso da internet livre em provas

Minha política, declarada desde 2009: o uso da internet é livre em todas as provas que aplico. Se nos colégios da Dinamarca é assim, porque não no Brasil?

Foi um dos dois inimigos declarados de Israel

Um dos beligerantes da guerra civil na Síria atacou o próprio povo com armas químicas. Qual lado foi? O governo, secular, aliado soviético durante a guerra fria, ou a fração extremista religiosa da oposição? Cada um acusa o outro, e só temos certeza do seguinte: foi um deles, um dos dois inimigos declarados de Israel e dos Estados Unidos.

Para quem afirma que a causa do grande problema do Oriente Médio são as políticas de Israel e o apoio americano a Israel, vale repetir: "Quem usou armas químicas contra a população civil foi um dos anti-imperialistas que você defende. O poder desses grupos e regimes é resultado do apoio internacional que eles recebem. A responsabilidade é sua, assuma."

15 agosto 2013

Cada povo tem o governo que merece #prontofalei

Cada povo tem o governo que merece. Isso tem 2 corolários meio dialéticos:

1 - Por isso cada povo deve governar a si próprio. Eu não quero ter o governo que os egípcios ou os polacos merecem.

2 - Há exceções, para pior e para melhor. Nenhum povo merece ser governado pelo ditador do Sudão, da Síria, ou do Zimbabwe. É inconcebível, mas eles estão lá, autóctones, é difícil derrubar uma ditadura. Os europeus, os continentais, têm governos melhores do que merecem. É porque desde 1945 a Europa central está ocupada pelo exército americano. Se deixar, a tentação do europeu é botar de volta no poder os governos que eles merecem.

Em síntese, cada povo tem o governo que merece #prontofalei

06 agosto 2013

Aritmética eleitoral e de transportes

Um ônibus cheio leva 60 eleitores, e cada carro leva 1 eleitor apenas. O intervalo entre sucessivos veículos passando por uma rua é maior que 2 segundos. Portanto se passar um coletivo a cada 2 minutos por um corredor de ônibus, vai haver mais eleitores andando de coletivo satisfeitos com o corredor do que eleitores nos carros reclamando que os ônibus andam mais depressa do que eles.

Não é necessário PhD em engenharia, economia, ou ciência política para fazer a conta acima. Um bom colégio, como o Colégio Bandeirantes, já seria mais que suficiente.

Pode acontecer que os eleitores favoráveis ao uso do transporte individual tenham, por motivos econômicos, sociais, ou culturais, influência maior do que a refletida pelos números. Ou pode acontecer que o eleitor desprovido de automóvel não age estritamente conforme a racionalidade do homo economicus. Nesses 2 casos, que numa democracia representativa são de certa forma coincidentes, é de se esperar que alguns usuários do transporte coletivo optem por andar de carro próprio.

Consideremos que, com as hipóteses de trânsito congestionado e motoristas habilidosos, cada carro usa aproximadamente um terço do espaço de um ônibus. Se os motoristas forem menos atentos, ou se o trânsito estiver mais fluido, o tamanho dos veículos se torna menos relevante, e o intervalo entre eles tende a ser o mesmo, quer se trate de carro, quer de ônibus. Se 10% dos 60 ocupantes do coletivo passam a usar transporte individual, o número de carros na rua triplica. Daí o trânsito pára.

Foi isso que aconteceu em S Paulo nos últimos 10 anos.

Doando Transactions, outros periódicos

Estou doando IEEE Transactions on Automatic Control, SIAM Journal on Control and Optimization, Control Systems Technology, Controle e Automação, outros periódicos científicos em controle automático e assuntos afins, dezenas de números e volumes, maior parte da década de 1990. Motivo: faz anos que não abro os volumes guardados.

Se interessar a alguém, por favor me comuniquem. Em caso de silêncio, será tudo reciclado.

04 agosto 2013

Call center Vivo Ajato: vá para aquela parte

Tento ser educado com pessoas que trabalham em call center, mas às vezes é necessário abrir uma exceção. Liguei para a Vivo Ajato High Speed internet para fazer uma pergunta sobre configuração. Na 1a vez que liguei esperei, esperei, depois cortaram a ligação sem atender. Na 2a vez, a pessoa que atendeu no suporte técnico disse que não poderia fornecer informações sobre configuração. Solicitei calmamente que transferisse a ligação para alguém que tivesse a capacidade de responder. Ouvi que "aqui é sou eu mesmo, não tem ninguém no suporte técnico que pode responder perguntas sobre configuração".

Mandei a pessoa para aquela parte e bati o telefone. Que se danem. O serviço da Vivo é mesmo muito ruim. A empresa não parece ter a competência para operar o serviço de comunicações. Isso pode não justificar minha resposta mau educada, mas a Vivo merece.

Adicionalmente, nao é possível contatar a Vivo para fazer uma reclamação pelo website da empresa. Você preenche toda a página, e daí o sistema informa que não foi possível registrar o comentário. O projeto da página da rede dá a impressão de ter sido feito com má fé, para dificultar o trabalho do assinante.

18 julho 2013

Trauma de repartição

Confesso: tenho medo de preencher formulário oficial e mais ainda de comparecer em repartição. Me estraga o dia anterior inteiro. Não é culpa dos funcionários públicos. As moças que atendem nas repartições - a maioria são mulheres mais novas que eu - são educadas, prestativas, e só ajudam a resolver os problemas que possam aparecer. Os procedimentos são burocráticos, talvez desnecessariamente complicados, mas não irracionais. Sei que não há nada a temer porque se por um acaso excepcional eu fosse tratado de maneira kafkiana não haveria grande dificuldade em reparar a injustiça. O Brasil é uma democracia e, se algum erro fizer isso necessário, não consigo imaginar grandes obstáculos para contatar autoridades superiores, dentro do executivo, do legislativo, e do judiciário, na cidade, no estado, ou na união. Racionalmente não há porque ter medo de barnabé.

Nem sempre foi assim, mas desde a Constituição cidadã do Dr Ulysses o tratamento nas repartições só tem melhorado. Consulado, passaportes, polícia federal, imposto de renda, justiça eleitoral, prefeitura, poupatempo, o pior que acontece é perder tempo na fila e ter que voltar outro dia. O atendimento é quase tão razoável quanto nas repartições análogas nos Estados Unidos, muitas vezes mais simpático embora sempre mais burocrático e complexo. Ter que comparecer a uma repartição americana me faz menos mal, com certeza porque a compreensão de que o governo americano é do povo, pelo povo, e para o povo está mais arraigada. Acrescento que o serviço público americano também sempre mostra que está do lado do cidadão, do qual se exige apenas o cumprimento da lei.

O medo é irracional, mas mesmo quando se trata só de preencher um formulário via internet, qualquer glitch de software me dá nó no estômago. É o trauma de ter nascido numa ditadura e ver na televisão aqueles fascistas que mandavam em nós sem ter nenhuma legitimidade. Agora com sua licença vou tomar um maracujá.

11 julho 2013

Cheguei na frente do grande @Romário11 ;-)

Numa sequência de tweets, o grande @Romario11, a quem muito admiro, escreveu:
Na terça, um grupo de deputados se reuniu com o Sr. Marin em Brasília. A reunião aconteceu na calada da noite e poucos foram informados. Até aí, tudo bem. O problema é eles tratarem no foro privado, um assunto que é de interesse público! Afinal, a anistia das dívidas dos clubes brasileiros com o Governo é ou não de interesse público? Mas alguns ainda preferem discutir este assunto longe dos olhos da população. E Marin parece estar cobrando fatura: http://on.fb.me/134H7K2
Sei como meu ídolo se sente. Já me fizeram isso na Poli uma vez, quando fui nomeado para uma comissão sobre ensino de engenharia. Um professor da engenharia de computação e outro da eletrotécnica fizeram as reuniões sem me avisar, imaginando que poderiam depois impor o resultado da discussão em portas fechadas a um professor mais novo e supostamente sem autonomia. O resultado é que fizeram uma proposta sem eira nem beira que não levou a nada. Não vou escrever nomes, cada um que suba à épura mongiana e se projete a si próprio em verdadeira grandeza.

Agora fazer isso com um recém doutor novinho é uma coisa. Com quem já fez mais de mil gols e teve 150 mil votos, é outra. Ambas vergonhosas, de maneira diferente.

A queda do governo islâmico no Egito

As várias causas imediatas para a deposição extrajudicial do governo da Irmandade Muçulmana no Egito incluem: a incompetência e autoritarismo do governo Morsi; a insatisfação popular com a crise econômica que se prolonga desde o fracasso completo do sistema nasserista; possível sabotagem de opositores; e o pouco respeito que tanto a Irmandade Muçulmana como as Forças Armadas egípcias têm pelas instituições democráticas.

É fundamental enfatizar que essas causas próximas são consequência de um fator mais fundamental: a religião não serve de base para um governo eficaz e com respeito ao cidadão. Não tem como servir, não serve, e nunca serviu.

Os esquerdistas na Europa e nas Américas associam o obscurantismo islâmico com o terrorismo e o anti-semitismo, para eles armas na luta terceiromundista contra o assim-chamado imperialismo, e portanto tendem a apreciar os regimes islâmicos. O desgoverno em países considerados subdesenvolvidos é um pequeno preço que os árabes devem pagar na luta global contra as liberdades burguesas, segundo a esquerda, que em geral aplaude a tomada do poder por fundamentalistas islâmicos.

Já a direita vê a religião como ópio do povo: uma forma de suprimir e controlar os anseios populares por liberdade e justiça. Os conservadores criticam os regimes teocráticos no Oriente Médio apenas por serem islâmicos; é puro racismo. Pelas injustiças e supressão das liberdades eles têm simpatia, e gostariam de duplicar aqui em casa, talvez em menor grau.

A religião pode servir como suporte para a ética privada, individual ou coletiva, mas nem o dogma religioso nem sua contraparte, o dogma anti-religioso, nunca serviram para a boa condução do estado. Isso vale para toda religião. Os partidos apenas nominalmente cristãos da Europa acumulam tanto mais fracassos quanto mais levam a sério a denominação. Todos os sucessos de Israel se devem ao governo republicano liberal, e ao lado dos fracassos andam as tentativas de controlar o país usando facções religiosas. Na América Latina, quando a igreja se associa de perto aos governos, em geral às ditaduras, sempre erra. A Índia é um país não rico, mas bem sucedido; o Paquistão é um desastre. E não há melhor exemplo do que confrontar os Estados Unidos da América, engendrado por cristãos ligeiramente observantes, mas de qualquer forma bastante tolerantes, com as distorções dos que querem introduzir subrepticiamente o cristianismo como religião oficial.

Não custa repetir: a única forma de construir um regime estável, não opressivo, e funcional é a democracia liberal representativa, que reconhece e aceita todas as crenças e descrenças, sem se basear em nenhuma delas. Todas as demais ideologias desembocam em ditadura de partido único, teocracia, ou caudilhismo personalista, e conduzem à catástrofe.

10 julho 2013

Goodbye transactions

After a decade of solid support for work and play, I am recycling 3 volumes of the IEEE Transactions to open space for evolving technologies. Think of the photos as a memorial, and preparation for a future adieux to more volumes.

Placeholder for book reviews

I may get around to writing something about history books I read recently - environmental history in particular. The ones below are certainly very instructive.

The World Until Yesterday: What Can We Learn from Traditional Societies? by Jared Diamond (who by the way went to the same elementary school as my daughters).

American Canopy: Trees, Forests, and the Making of a Nation, by Eric Rutkow.

Genesis 1948: The First Arab-Israeli War, by Dan Kurzman.

Lawrence and Aaronsohn: T.E. Lawrence, Aaron Aaronsohn, and the Seeds of the Arab-Israeli Conflict,  by Ronald Florence.

Engineers of Victory: The Problem Solvers Who Turned The Tide in the Second World War, by Paul Kennedy.

I also read on dynamical systems, partial differential equations, and geometry, and I hope to write what I learned from those in a scientific publication. I don't read a lot of fiction, and I write about fiction even less. This post is a mere placeholder.

09 julho 2013

Ordens e contraordens

De todas as mandâncias do atual governo federal, a mais reveladora e preocupante é o decreto aumentando a duração do curso de medicina para 8 anos. Não tanto pelos 2 anos a mais; entre residências e especializações praticamente obrigatórias, o estudo de medicina já leva mais do que os 6 anos nominais. Não acredito que o aumento da duração nominal do curso vai ser um grande obstáculo, ou que necessariamente afastará estudantes da carreira médica.

Do meu ponto de vista, são melhores os resultados da prática americana (estadunidense setentrional para vocês anti-imperialistas), na qual medicina, direito, e arquitetura (embora não engenharia) são cursos profissionais feitos após uma graduação de formação geral em assuntos relacionados. Acho que a engenharia nos Estados Unidos se beneficiaria de uma estrutura semelhante, e que deveríamos pensar em incorporar alguns desses conceitos nas escolas profissionais no Brasil. Portanto, não considero que o aumento da duração do estudo de medicina seja por si só indesejável.

Não inspira confiança o ranço neo-polpotista da proposta: obrigar todo mundo que usa óculos a sair da cidade e ir trabalhar no campo sob supervisão do benevolente grão-timoneiro. Um ponto crucial é que a imposição presidencial não se aplica apenas a algum grupo de bolsistas ou beneficiários de escolas de medicina subvencionadas pelo contribuinte, sobre os quais se poderia argumentar que assumem de vontade própria uma obrigação com o Estado. Obedecendo o decreto, todos os médicos seriam forçados a trabalhar para o governo por 2 anos, por uma remuneração fixada por lei e não negociada individualmente ou pela categoria profissional. Essa é uma deixa para o engenheiro constitucionalista atacar o decreto, mesmo sem muita esperança que a corporação das leis cumpra sua missão de invalidá-lo peremptoriamente. A obrigação de trabalhar para o governo viola o espírito de diversas garantias constitucionais:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social... Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.

Art. 5o. XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; XLVII - não haverá penas: ... c) de trabalhos forçados;

Me parece também que a Constituição diz implicitamente que todos os impostos devem ser pagos em dinheiro. A imposição de trabalho, mesmo que compensado financeiramente, é uma forma de imposto, portanto fora das possibilidades da União. Salvo erro meu, não há proibição explícita contra o trabalho obrigatório na Constituição, mas o direito de trabalho livre está assegurado implicitamente, impedindo a União de coagir um profissional a trabalhar para o SUS como condição para validação de seu diploma.

Mais do que o conteúdo da proposta, preocupa a forma como foi feita. Um decreto presidencial não é modo de conduzir uma reforma na medicina. A grande virtude das corporações profissionais é terem códigos de conduta e procedimentos específicos que elevam a profissão acima de governos, empresas, e partidos políticos. Medicina em particular é uma profissão complexa; é difícil imaginar que o voluntarismo de um político, eleito e bem intencionado que seja, consiga melhorar a prática da medicina e seu ensino, na ausência de discussões prévias e de um consenso entre os conhecedores da realidade da profissão.

A figura do decreto-lei ou medida provisória já é problemática do ponto de vista da separação dos poderes da República e do bom funcionamento das instituições. Nesse caso complexo, importante, mas de nenhuma forma urgente, o decreto usurpa as funções do congresso e interfere na autonomia das associações acadêmicas e profissionais. É emblemático das dificuldades nas quais o governo está se metendo após gastar a assim-chamada herança maldita: quer governar por decreto, forçando soluções mirabolantes para problemas complexos que exigem o esforço de toda a sociedade, não apenas uma medida administrativa.

04 julho 2013

Manifestantes

Um manifestante passeava numa mídia social,
Vendo que curtiam, chamou os companheiros.

Dois manifestantes passeavam passeavam numa mídia social,
Vendo que curtiam, chamaram os companheiros.

Três manifestantes passeavam passeavam passeavam numa mídia social,
Vendo que curtiam, chamaram os companheiros.

Quatro manifestantes passeavam passeavam passeavam passeavam numa mídia social,
Vendo que curtiam, chamaram os companheiros.

Cinco manifestantes passeavam passeavam passeavam passeavam passeavam numa mídia social,
Vendo que curtiam, chamaram os companheiros.

02 julho 2013

A Constituição da Islândia

Li a Folha hoje porque minha irmã publicou um artigo. Encontrei também um artigo com um erro grosseiro sobre reforma constitucional. Na incerteza de que a Folha publique uma correção, registro aqui:
Ao contrário do que afirma Vladimir Safatle no artigo "Medo das massas", as propostas de reforma constitucional na Islândia não chegaram a um resultado aceitável pelos eleitores. Continua em vigor a Constituição islandesa de 1944. 
A constituição "crowdsourced" não avançou muito justamente porque a proposta era desorganizada, talvez até um pouco caótica, e de qualquer modo uma nova constituição não era prioridade do eleitor. A ideia de que a Islândia é governada por uma constituição escrita por 950 pessoas escolhidas ao acaso é uma peça da imaginação fantástica do articulista.

01 julho 2013

Ataque ao espantalho

Comentário sobre o artigo "Por que o Brasil não deve cair na falácia do voto distrital".

Bobagem. A falácia do argumento do cara é chamada de "straw man", ataque ao espantalho. Ele procura problemas no voto distrital nos Estados Unidos e Inglaterra para dizer que não funciona. É mais ou menos como quem grita "Jean Charles" a cada vez que a polícia brasileira comete uma atrocidade. Como a polícia inglesa matou um brasileiro, a polícia brasileira tem o direito de matar um inocente a cada meia hora.

Todo sistema de voto tem seus defeitos. A vantagem do voto distrital é que mesmo se o seu candidato não ganha seu voto não é perdido: quem ganhou é seu representante, e tem que lutar para mudar sua opinião para a próxima eleição. Nos Estados Unidos a renovação é baixa porque a eleição é a cada 2 anos, e os eleitores em geral ficam satisfeitos com seus deputados. Quem vota contra é por oposição ideológica. Os representantes não podem se afastar demais do eleitorado local, nem ideologicamente nem na atuação prática, senão perdem a maioria.

No voto proporcional, ou semi-indireto, o dono do cargo não é nem o eleitor, nem o deputado, nem o próprio Tiririca, nem as centenas de candidatos quasi-fantasmas que não têm chance de ganhar mas concorrem só para gerar massa de votos para o partido. O dono do mandato é o dono do partido, são os donos do poder que montaram esquemas e coligações. Por isso os donos do poder querem fazer o voto indireto, em lista fechada, apesar de ser inconstitucional; mas se isso não der certo, deixar como está, de preferência com mais dinheiro do contribuinte para complementar o caixa 2.

Mais uma coisa: quando ele critica, é com base em afirmações vagas sem comprovação tipo "estudos mostram". Quando ele elogia o voto proporcional, é com base na experiência democrática russa do Putin.

20 junho 2013

Fundo de Garantia é inconstitucional

Para facilidade de referência, o engenheiro constitucionalista reproduz aqui post escrito no Crônicas da Sala de Aula, mostrando que o FGTS é um imposto não autorizado pela Constituição. Note que exorbito minha capacitação profissional de engenheiro para defender solitariamente nossos direito de cidadão, uma vez que os advogados, economistas, e jornalistas, que profissionalmente estão mais qualificados para opinarem sobre o assunto, não o fazem.

O caso constitucional não é difícil não. Pelo Art 5o, o ônus é da União de provar que o uso livre do Fundo não atenderia a função social da propriedade. Adicionalmente, tem que haver lei específica para restringir essa garantia constitucional. O Art. 170 reforça os mesmo princípios, enfraquecendo a causa das regulamentações do tal Conselho Curador. E pelo Art. 153, a União teria que provar que a restrição ao uso do Fundo não é uma forma de imposto, já que não compete à União taxar a pequena poupança. Mas a indisponibilidade do bem é inequivocamente um imposto, de forma que a União não tem como defender racionalmente as limitações impostas ao poupador.

Citações abaixo. 

Art. 5o Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
…
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
…
XXII – é garantido o direito de propriedade;
XXIII – a propriedade atenderá a sua função social;

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:
I – importação de produtos estrangeiros;
II – exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados;
III – renda e proventos de qualquer natureza;
IV – produtos industrializados;
V – operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários;
VI – propriedade territorial rural;
VII – grandes fortunas, nos termos de lei complementar.

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
…
II – propriedade privada;
III – função social da propriedade;

17 junho 2013

Manifestação e inflação

Lembrete para as otoridades que diziam que 2% a mais ou a menos de inflação não fazem diferença: o povo não gosta de aumento de preços.

12 junho 2013

O fim da herança maldita

O PT governou o Brasil durante uma década, carregando a assim-chamada herança maldita do governo de Fernando Henrique Cardoso. Foram 10 anos bons.

Instituições republicanas consolidadas, embora nem sempre tomando as decisões que gostaríamos. Democracia viva, liberdade de expressão, eleições limpas. Criminalidade alta mas diminuindo, pelo menos nos estados melhor governados. Contas públicas sob controle, inflação baixa, desemprego caindo. Otimista, o povo aproveitou para consumir, e também para investir em saúde, educação, e moradia.

Herança nenhuma dura para sempre, e na política 2 lustros é muito tempo. Agora que a maldita já foi gasta, o que acontecer é resultado das decisões do governo do PT. Vamos todos torcer para que o Brasil continue melhorando. Meu otimismo é temperado.

29 maio 2013

Paul Krugman: um professor americano

Existe toda uma indústria de antagonizar o Paul Krugman. O problema para esse ramo de negócios é que a realidade tende a ficar do lado do antagonista. Já passou da hora dessa indústria cessar as atividades (Chapter 7 of the US Bankruptcy Code, não capítulos 11 ou 13 que regulam reorganização ou concordata; no Brasil, extinção de pessoa jurídica, não mera falência ou concordata).

Para ajudar a entender o professor americano, minha irmã colocou no Dropbox um texto que escrevemos. O texto foi aprovado para publicação, mas impressão está demorando. Enquanto aguardamos, o texto está disponível para nossos colegas, leitores, e estudantes para estudo e uso privado, sem finalidades lucrativas, continuando reservados os direitos autorais. Estou informando porque na minha opinião o texto é instrutivo (mas essa frase traz menos de um bit de informação, porque é claro que eu acharia que é bom).

23 maio 2013

Regimento da pós graduação da Usp

Em 2007 circulou uma proposta de regimento para a pós-graduação na Usp, sobre a qual fiz alguns comentários que talvez o dileto leitor tenha lido (e esquecido).

Circula agora um cartapácio de umas 50 páginas com a proposta de um novo regimento (não tenho link). O regimento atual não é aquele que comentei em 2007, portanto eu perdi o fio da meada - será que a pós-graduação da Usp já teve mais regimentos do que o Brasil já teve constituições?

A nova proposta está escrita em português corrente, correto, e coerente, uma inestimável melhoria em relação ao lixo que circulou há 6 anos. Isso dá conta da maioria numérica das críticas que fiz na época. Dos problemas principais que indiquei, o do idioma para ter sido considerado, embora talvez um pouco timidamente. Os demais - Procedimento para queixas e solução de disputas; Liberdade de expressão; e Integridade e ética - não me parece que encontraram espaço no cartapácio.

Uma coisa que mudou nesse período é que comecei a ler Faoro, que nos Donos do Poder, página 85, nos ensina, sobre as Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, que "...Não havia, a rigor, direito civil, nem direito comercial, mas direito administrativo..." Em escala menor, o regimento não rege a pós-graduação: ele apenas normatiza as ações da burocra, controla os funcionários do estamento. Errei portanto em imaginar que o regimento faria qualquer menção a conceitos fundamentais para a condução dos estudos avançados. Mesmo considerando minha ignorância, a omissão de mecanismos para solucionar queixas, permitir a livre expressão, e garantir a ética, não deixa de ser sugestiva.

19 maio 2013

A história do futebol brasileiro

A história do Brasil nas Copas deve, no meu entender, ser vista como a batalha entre o talento natural do brasileiro e os donos do poder estudados por Faoro. Senão vejamos. Entre 1930 a 1954 houve a época do complexo de viralata. A organização das seleções era realmente uma tristeza de bairrismo, esbulho, incompetência, e falta de patriotismo. De todo modo o Brasil teve pelo menos 3 times competitivos. Poderia ter tido mais, mesmo assim só não ganhou porque em 1o lugar fica um só, e não foi o time de Leônidas da Silva nem o de Domingos da Guia.

Na era Pelé, entre 1958 e 1970, o gênio desmontou a burocra, que não conseguiu bloquear os demais talentos. Os craques impunham a escalação dos outros craques, independente de hierarquias sociais ou militares. É uma época de exceção.

Os títulos da era Pelé devolvem força aos cartolas, que começam a achar que entendem de bola.
Segue um recrudescimento da força estamental. Apesar da falta de vitórias, os times brasileiros entre 1974 e 1986 são todos competitivos. Nenhum ganhou, verdade, mas o motivo foi simplesmente o acaso do futebol. Mas a repressão ao talento era um tema presente: em 74, Ademir da Guia, o craque que Zagalo desprezou; em 78, Falcão, o melhor jogador do Brasil, ignorado pelos bacharéis do esporte; culminando com a exclusão de Romário, o maior e o mais indomável deles, em 90.

O herói da luta contra o estamento nessa época é Telê, o único que deixava os craques jogarem. Dessa vez as não-vitórias de Telê conduzem à assim-chamada Era Dunga, que se convencionou começar em 90, mas cujas raízes já estão presentes desde 74, e que perdura até os nossos dias, com intervalos. A vitória do estamento foi tão completa que o Brasil quase ficou de fora da Copa de 94. Para não matar a galinha dos ovos de ouro, que é o futebol, o estamento se rende ao craque. Muito a contragosto: o talento de Raí e outros foi reprimido em 90 e o maior herói da luta contra a burocra nessa época, Romário, ficou fora do time que não ganhou em 98. De qualquer forma o Brasil voltou a ganhar: 3 finais em sequência.

A vitória teve um preço. A campanha vencedora de 2002 tranquilizou o estamento, que voltou a atuar sem rédea nem bridão. Os bacharéis - dono de títulos em ordenações afonsinas, currículos de administração ultramarina, e diplomas de física - instalaram o futebol burocrático, sem viço nem vigor, sem risco nem criatividade, de 2006 até hoje. O desastre ainda não foi de monta a restringir a auto-suficiência da nobiliarquia, em renovada versão do complexo de viralata: o brasileiro precisa jogar como os europeus, de preferência lá na Europa mesmo. Mais precisamente: o brasileiro precisa jogar como o estamento, incluindo boa parte da crônica esportiva, acha que jogam os europeus.

Quem entende de bola diz, tartakowerianamente, o que o Brasil só perdeu de 2 adversários: da Hungria em 54, e da Holanda em 74. Das outras vezes, perdeu de si mesmo. Por superestimar o adversário, ou fingir subestimá-lo, o que no fundo é a mesma coisa. Conseguirá o talento voltar a prevalecer contra o fogo amigo dos comitês? A conferir.


16 maio 2013

Winning is for losers

Campeão dos campeões, eternamente, dentro dos nossos corações. O que acontece no Pacaembu é relativamente menos importante.

Agora, que foi roubado foi. O Boca é um grande time, Riquelme é craque, o Corinthians inteiro não jogou bem, e a torcida foi insuficiente, mas 4 anulados entre gols e pênaltis é dose para alufante. Melhor talvez ter ganho ano passado, quando Tokyo deu moleza. Esse ano parece que é dos tedescos.

Falando neles, "winning is for losers" recorda Danish dynamite. O único técnico alemão que prestou em toda a história do futebol foi o Piontek. Justamente por isso, nunca se firmou no próprio país. Os outros todos sempre foram uns Dungas com barbeiro melhorado. Parece que os bávaros finalmente entenderam isso e chamaram um técnico catalão.

Sem Pato na Libertadores, vou até torcer para o galo. Mas o mundial é dos alemães, se não levarem muito frango.

13 maio 2013

Importação de médicos cubanos

A discussão da proposta do governo brasileiro de importar 6 mil médicos cubanos está curiosa. Invertendo as posições tradicionais, a esquerda ataca o corporativismo das associações profissionais. E os conservadores que defendem os controles burocráticos do sindicato dos médicos.

Minha ignorância não sabe o que está certo. Oportunidade de trazer bons médicos já formados a um custo baixo? Oportunidade para um regime falido explorar cidadãos trabalhando em regime de semi-escravidão, com salários arrestados pelo governo? Quebra do monopólio corporativo? Favorecimento dos profissionais mal formados de um regime amigo do governo? Como vou saber?

Aposto que quando o Fidel morrer vamos descobrir que os bons índices de saúde de Cuba são obtidos através de fraudes estatísticas, mas isso não quer dizer que os médicos da ilha sejam ruins. Enquanto isso, se alguém quiser olhar o blog do Nassif para identificar o lado errado da disputa, me conte que eu não tenho paciência.

Horários na Poli

O problema dos horários na Poli é de complexidade computacional proibitiva. Lição de casa: determine se é polinomial, combinatória, NP completa, o que for. Trata-se de alocar cada matéria de modo que nenhum aluno tenha conflito de horários. No imaginário politécnico existe todo o tipo de obstáculo para a flexibilização dos currículos - administrativo, ideológico, ou político. A dificuldade de resolver esse problema de alocação é o único obstáculo real.

A solução convencional é fazer o rabo abanar o cachorro: todos os alunos do mesmo curso fazem exatamente as mesmas matérias, então a complexidade do problema de alocação diminui muito. O currículo fica então subordinado ao algoritmo de alocação de horários. Problema resolvido, problemas maiores criados.

Conversando com minha filha que faz colégio (High School) em Brookline, Massachusetts, me dei conta que o problema de horário é resolvido lá de forma mais eficaz. O horário letivo é dividido em 10 "blocos". Cada bloco contém um número de horas de aula espalhadas pela semana - a maioria 4 aulas por semana, sendo uma com duração um pouco mais longa. Por exemplo, uma disciplina oferecida no Bloco B tem aulas 2a e 4a das 9:15 às 10:10, 5a das 8:20 às 9:30, e 6a das 8:20 às 9:10. Outras atividades didáticas ocorrem em blocos menores. O Bloco X, por exemplo, é apenas uma aula 5a feira, das 10:30 às 11:10.

As matérias mais básicas - história e matemática por exemplo - há turmas oferecidas em mais de 1 bloco, dando alguma flexibilidade para o aluno escolher suas eletivas, que têm menos turmas e portanto são oferecidas em apenas um bloco. A flexibilidade tem um limite natural: o estudante não consegue fazer 2 eletivas oferecidas apenas em um único horário coincidente. De qualquer forma, o problema de alocação das 6 disciplinas de cada estudante em 10 blocos é muito mais simples. Consequentemente, não existem problemas administrativos que impeçam que um aluno do colégio público de Brookline tenha muito mais autonomia para organizar seus estudos do que um universitário na Poli. Por exemplo, um estudante pode fazer um curso de língua estrangeira avançado e matemática no nível mais básico; ou vice-versa; ou ambos avançados, ou básicos, de acordo com seu talento e motivação para o francês, japonês, ou álgebra.

Em contraste, na Poli cada disciplina pode ocupar um conjunto qualquer das horas dentro da grade horária semanal, aumentando combinatoriamente a possibilidade de conflitos de horário. Vou deixar escrita aqui a sugestão de que a Poli e a Usp poderiam adotar um sistema de blocos para racionalizar os horários. Mais tarde quando tiver um tempo livre monto uma tabela com uma sugestão de blocos, com o intuito de deixar mais claro como esse sistema poderia facilitar o planejamento para professores e alunos.

08 maio 2013

Sobre a assim-chamada escola austríaca

Um ex-aluno, hoje colega engenheiro, pediu para apontar erros num texto de um professor da George Mason University. Escrevi alguma coisa para ele no Facebook e copio aqui.

Uma refutação é a poluição. O proprietário de um poço de petróleo vende o óleo, pode deixar derramar, quanto mais vender com menos desperdício (do seu ponto de vista) em proteção ambiental, mais lucra. O comprador também aufere vantagens, por exemplo movimentar seu automóvel. Porém se a complexa operação não for executada com extremo cuidado, ela torna a sociedade inteira mais pobre e sofredora, e a economia futura menos produtiva, por causa da devastação ambiental e dos danos a saúde. A proteção que o estado oferece à propriedade privada em nada ajuda. É necessária uma regulamentação estrita e limitação dos direitos privados, além de impostos pesados, se não quisermos ir para o caminho dos habitantes da Ilha de Páscoa. Essa situação é bem entendida pela ciência econômica convencional, baseada na realidade. Na verdade é menos demorado perguntar o que está certo do que o que está errado na assim-chamada economia austríaca. Essa é um amontoado de lugares comuns elevados à categoria de postulados inatacáveis, apesar de que raramente terem significado mais geral e frequentemente levarem a contradições. Um tipo de astrologia, homeopatia, com paralelo no marxismo.

Outro absurdo que o artigo comete, de ignorância tão profunda que dificulta a presunção de boa fé, é quando ele fala do colonialismo na África. Com um mínimo de cultura literária e histórica o autor lembraria do genocídio no Congo Belga. Talvez o maior crime da história da humanidade. Um gajo que escreve "As potências coloniais jamais perpetraram os indescritíveis abusos de direitos humanos" é quase um cúmplice. O sujeito escrever uma barbaridade como a que ele escreveu num artigo com pretensão acadêmica ou didática demonstra profunda ignorância e má fé.

Meu argumento não é 100% válido, mas o dele é 100% errôneo. Nenhuma regulamentação ou legislação é perfeita, nada no mundo real é perfeito. O não ser perfeito não é argumento contra nada. Quanto às exigências das seguradoras [serem mais eficazes para garantir a segurança de ambientes de trabalho do que a ação direta do governo], o sistema todo só existe porque há leis específicas que exigem seguro contra terceiros. A ação regulatória não precisa ser efetuada totalmente através de atos diretos do governo. Por exemplo, a empresa de seguro pode muito bem ser privada, e em geral funciona melhor, pelos argumentos que você conhece. Esse tipo de argumentação - atacar um straw man, um espantalho a quem o autor atribui linhas de pensamento que ele identifica com seu opositor, apesar de que o opositor nunca as defendeu - é uma falácia de argumentação típica dos assim-chamados economistas austríacos. No caso, dizer que quem defende algum tipo de regulação ou imposto é um comunista absolutamente contrário à propriedade privada.

Tudo isso dito, é verdade que a liberdade individual - inclusive de iniciativa econômica - não apenas facilita a prosperidade mas é um valor humano fundamental que deve ser um objetivo da sociedade independentemente dos benefícios econômicos. Essa é uma das tautologias às quais me referia acima, que entre os picaretas da George Mason é distorcido para defender os maiores absurdos, e para acusar qualquer pessoa que defenda alguma política social ou de impostos de comunista ou algo pior. Recomendação: não perca seu tempo [lendo adeptos da assim-chamada escola austríaca].

03 maio 2013

Opera or operetta?

Tell me if this criterion works. When the music is good and the audience finds it good fun, it's an opera. When the music is dreadful and the audience is dreadfully affected, it's an operetta.

Yes, I understand the metric is unconventional and that it fails to distinguish between Wagner and Strauss, but perhaps inducing the S1 circle topology (as opposed to the R1 real topology) is actually a strength.

Blog do Nassif

De vez em quando dou uma olhada na assim-chamada imprensa alternativa, e hoje fui recompensado com um esclarecimento. Sempre soubemos que blogs como o do Nassif estavam infestados de extremistas. Quem quiser pode conferir a simpatia ao terrorismo na cobertura - e nos comentários - dos atentados da maratona de Boston. Em geral o extremismo está ligeiramente disfarçado: a tiranofilia aparece como anti-imperialismo; o ódio racial se diz anti-sionista; a crítica a alguma política de alguma democracia serve como elogio às ditaduras de partido único; um crime ou erro policial num país livre justifica o apoio a regimes genocidas; a crítica aos defeitos de um jornal motiva a defesa da censura a imprensa; um político desonesto invalida toda o conceito da democracia representativa; e assim por diante.

Mas não é sempre que a simpatia ao nazismo alemão se declara abertamente. Quem tiver estômago, confira.

02 maio 2013

Eixo do Mal?

Bush 43 foi muito ridicularizado pela expressão "Eixo do Mal", que juntava no mesmo balaio regimes e ideologias diferentes e não necessariamente alinhadas. Porém.... as manchetes do jornal diário de hoje às vezes dão a impressão que a aliança entre comunistas, terroristas, nacionalistas, maoístas, salafistas, fundamentalistas, e tiranófilos sortidos, todos unidos numa guerra contra a vida, a liberdade, e a felicidade das pessoas comuns, é mais real do que gostaria de admitir o sarcasmo das personalidades muito sérias.

Debate sobre quotas raciais no Grêmio Politécnico

O Grêmio Politécnico pediu um texto para debate sobre quotas raciais. O debate ainda está para ocorrer, meu texto está aqui. Agradeço ao Grêmio pela oportunidade e pela amável autorização para divulgar.

01 maio 2013

Currículos da Poli

Em 1993 o curso de Automação e Controle da engenharia elétrica da Poli fez uma proposta de flexibilização de currículos. O autor da proposta fui eu. Ela foi aprovada e implantada nos anos seguintes, graças ao apoio e esforço dos colegas do LAC, e especialmente dos professores Vitor Marques Pinto Leite e Jocelyn Bennaton, de quem tenho saudades. Pelo que parece registrar a memória dos vivos, foi a primeira vez que na Poli se permitiu que cada estudante tenha papel importante na direção de seus estudos.

Agora a Escola Politécnica aprovou um currículo mais racional e flexível para todos os estudantes de engenharia. Não sei analisar quanto das ideias de flexibilização foram incorporadas na decisão final, e quanto foi sacrificado para apaziguar o estamento burocrático. Muito menos sei precisar a influência da minha proposta original nesses 20 anos em que o currículo de 1993 foi muitas vezes copiado, imitado, reduzido, modificado.....

Ajudei ou atrapalhei? Quanto? Não sei.

Pequeno ou grande que tenha sido meu papel, pessoalmente sinto essa luta de 20 anos mais como um fardo, perdido nos ermos sertões de Mordor, do que como um triunfo dos sete pilares da sabedoria.

The Road goes ever on and on
Out from the door where it began.
Now far ahead the Road has gone,
Let others follow it who can!
Let them a journey new begin,
But I at last with weary feet
Will turn towards the lighted inn,
My evening-rest and sleep to meet.

25 abril 2013

Sobram bolsas para brasileiros em Harvard e MIT

Acho que o diagnóstico desse artigo do Estadão está errado. As dificuldades para um brasileiro estudar numa dessas universidades são as seguintes:

1 - O programa Ciência sem Fronteiras é uma bagunça mal ajambrada, improvisada pelo governo federal sem consulta nem entendimento das necessidades e possibilidades do mundo acadêmico. Talvez com a melhor das boas intenções, mas é uma bagunça.

2 - O meio acadêmico brasileiro é corporativista e nem sempre prepara e estimula o estudante a ir ao exterior por iniciativa própria. Muitos professores até criam obstáculos culturais que prendem os pós-graduandos à tutela dos orientadores e programas. Esses obstáculos incluem a burocratização das publicações e a hipertrofia de linhas de pesquisa descoladas da realidade ou presas a ideologias irracionais.

3 - Essas universidades dos EUA têm professores e estudantes de muito gabarito. É um meio muito competitivo, de forma saudável que seja, mas é só uma pequena fração dos estudantes brasileiros que, reunindo a preparação, motivação, curiosidade, e flexibilidade intelectual necessárias, vão se virar bem nelas.

Não é como viajar para Miami, que está ao alcance de qualquer um. Também não é questão de criar mais uma burocra para forçar todo mundo a fazer cursinho de inglês da Capes. Para um aluno fazer uma boa pós-graduação não basta o generoso voluntarismo nem as diretrizes administrativas das autoridades. É bom que existam bolsas disponíveis, porque o fator mais importante - o talento - está disponível no Brasil em abundância.

16 abril 2013

Bitcoin, o drachma do povo?

O Euro é um desastre. Mas parece que nem a Grécia nem a Alemanha querem sair do Euro; nem Portugal nem a Holanda.

Talvez alguma forma de Bitcoin pudesse ser a salvação. Indivíduos na Grécia imprimem uns drachmas virtuais, privados. O governo cala a boca, não ajuda nem atrapalha. Pelos menos esse dinheiro de fantasia serve para pagarem uns aos outros. Estão todos desempregados mesmo, melhor receber em dinheiro de banco imobiliário do que nada. Os gregos ainda vão precisar de Euros para pagar impostos, dívidas, e importações. Os drachmas virtuais vão valer menos - seria uma forma da reinflação e desvalorização cambial que a Grécia necessita mas não pode fazer, por não ter moeda própria.

Isso poderia funcionar? Talvez. Seria uma curiosa ironia. Nos Estados Unidos, Bitcoin é interessante para geeks mas essencialmente irrelevante para a economia. Os entusiastas do bitcoin nos Estados Unidos são fetichistas de ouro e lunáticos anti-governo. Gente que perde dinheiro mas não abandona a ideologia. Onde o dinheiro privado poderia ajudar é justamente para implementar as políticas defendidas pelos economistas que eles mais odeiam, os keynesianos mainstream.

National Dynamite Association issues statement

"Tragedies like the one in Boston would not happen if every athlete carried a pack of explosives. To defend our freedom, we need good men carrying concealed dynamite in every sporting event. Bombs don't kill people; people do."

Maratona de Boston

A extrema direita dos Estados Unidos e a esquerda brasileira concordam: as explosões da maratona de Boston foram ação do governo americano.

That's why I like Barack Obama, poor man's friend.

15 abril 2013

Boston marathon

The Boston marathon starts in the middle of the night with the bicycle crowd. The people on wheelchairs reach Brookline late morning. Then come the leading women, and the Kenyan men around noon. After them, thousands of amateur but not any less impressive athletes. For me the best part used to be the stragglers, the people who overestimated their endurance, the optimists who keep running or at least walking till dark, even after the cleaning crew comes and finishes their work.

Not this time. The race was disbanded and Beacon Street is mostly empty. Tram service suspended. And tonight's concert at the Symphony had to be canceled.Terrorists from one group, terrorists from another group, or the people who think the city should not spend on maintenance because it benefits everybody and not just themselves, whoever arranged the explosions did not want to endear their cause to me.

I understand this post is very selfishly about me, and I was the least affected by the whole thing. But I would have liked to go back to the routine.

10 abril 2013

Fazendo as contas

E. O. Wilson escreve que para ser um grande cientista não é necessário saber muita matemática. É um raro caso no qual Paul Krugman concorda com algo que saiu no Wall Street Journal. Vou dar minha opinião também, discordando. Wilson está certo ao afirmar: "para cada cientista, existe uma disciplina para a qual o seu nível de competência matemática é suficiente para alcançar excelência." O melhor exemplo para os engenheiros elétricos é Faraday.

O princípio de Wilson é correto como tautologia: sem a competência matemática necessária em sua disciplina, o indivíduo em questão não é um cientista. Como disse Tartakower, alguma parte de um erro sempre está certa.

Vale aqui contar a história apócrifa do professor de matemática explicando para um estudante que a álgebra salva milhares de vidas todos os anos. "Como?" pergunta o estudante, incapaz de entender a relevância das abstrações matemáticas para suas ambições de se tornar um profissional bem sucedido.

"A álgebra impede que imbecis como você, incapazes de raciocinar abstratamente, se formem engenheiros ou médicos."

09 abril 2013

1982

Em 1982 a ditadura no Brasil estava no fim. Não havia mais censura, os partidos políticos e movimentos estudantis eram livres, os exilados estavam de volta, as leis de exceção tinham sido revogadas. Dava para ouvir claramente as opiniões de cada um. Na Argentina, uma ditadura muito mais sanguinária do que a brasileira em seus piores momentos continuava no poder. Era o exemplo a não ser seguido.

Até que os caudilhos hermanos invadiram as ilhas Falkland, que ninguém fora uns geeks leitores de atlas sabia onde ficavam. De repente as esquerdas no Brasil (e no resto da América Latina, até onde lembro) se enamoraram da ditadura e descobriram as tais ilhas Malvinas. Nenhum crime era imperdoável se o criminoso estava contra a Inglaterra, contra o capitalismo. A esquerda sabia de que lado estava: com o Kampuchea Democrático, com a Albânia, com Cuba, com a República Democrática da Korea. Contra os Estados Unidos, contra a Inglaterra, e a favor da Ditadura Argentina.

A tática funcionou. Com a invasão, o povo argentino, direita e esquerda, passaram a apoiar o governo. Que até onde sei ainda estaria lá, se não fosse Margaret Thatcher. Entre um peronista e outro, o fascismo continua presente na Argentina. Se dependesse do politizado povo argentino, ou da tibieza de Ronald Reagan, ou do bom senso dos generais, a ditadura não teria caído nunca. Os generais brasileiros tiveram noção de sua incompetência observando a permanente crise em que a má gestão meteu o país. Para os argentinos, foi necessária uma derrota militar.

Margaret Thatcher projetou a direita e a esquerda latino americana em verdadeira grandeza: o mesmo bando de facínoras e de incompetentes. Ganhou o ódio dos articulistas da Folha e minha gratidão.


02 abril 2013

NYTimes magazine article "Death of a Caveman / Who Lives Longest?"

To the editors,

The article "Death of a Caveman / Who Lives Longest?" claims that "life expectancy at birth in the United States is roughly 79 years, and it’s the same at age 25". This may mean either that people who reach the age of 25 live in average only to the same age as newborns do, a mathematical impossibility; or that 25-year-old Americans will reach an average age of 104, which is false. Unfortunately this error makes the whole argument of the article collapse, except for the quote “ ‘Life expectancy’ is this term that entered public lingo without public understanding of what it really means.”

Yours sincerely, Felipe Pait

31 março 2013

Question about Cyprus if anyone can answer

They say banks in Cyprus have large deposits from foreigners (many of them Russian, but this is not important for the purpose of this question). The government had planned to take a 10% cut of all deposits to make up for bank losses (it was told to do so by the Germans, but that's not part of my question either). That didn't go down very well so now the threat is that cuts of perhaps 2/3 or 3/4 of large deposits will be necessary to make up the shortfall.

The math doesn't work. If most of the deposits are from wealthy overseas investors, then 10% of all deposits is not much more than 10% of large deposits. Conversely, if a large cut of large deposits is necessary to avoid harming small depositors, then a large fraction of bank deposits are by small investors - and Cyprus was a haven for rich overseas investors.

Either I misunderstand something very badly, or they are lying to us and not being caught (who "they" are may be relevant for my question, but I don't know who it is).

Será que nunca bloguei isso?

O Corinthians quando ganha,
Alegria do povão.
O Corinthians quando perde,
O juiz é que é ladrão.
Se a vitória é roubada,
Alegria é dobrada.
Se a derrota merecida,
Pega os bambi na saída!

I'm going to rant also

Unusual amount of junk in the NYTimes today. So here is MY rant, without links because no one deserves to read those articles.

- Nearly all teachers pass evaluations. Big surprise. Passing is not hard. Most students pass. Most managers and workers also don't get fired at the end of the year, although many are mediocre. At the end of the article, the author says why, although without noticing: a few percent of teachers who underperform get fired. The rest are doing alright, not necessarily great.

- A pointless article about "lowriders" in S Paulo, Brazil. What is a lowrider anyway? I live in S Paulo and in the US, and the only thing I know is that it is not something that matters.

- Why does a rant by a certified fool like David Stockman gets published?

- Inane platitudes about how to raise children. Parenting today is much better then in the good old days. I'd make the big compliment: most parents I meet are almost as good as mine were. Yes, they let us walk around, we didn't have cell phones, they worried, we got home. Now we give kids cell phones and worry less. If Frank Bruni doesn't like iPhones, he can take them away from his friends, not from my daughters.

- Poorly argued opinionizing about how China will become more innovative then America despite (or because) it is a repressive dictatorship. Having an opinion without an argument is not a reason to interrupt my Sunday newspaper reading. Having written a book is not a credential either. Anyone can write a book these days.

- The miracle in Northern Ireland. Peace in Northern Ireland is not a miracle. The United Kingdom is a free country. Catholic and Protestant should be able to live together like Hindu and Buddhist, Jew and Moslem. We do it in the US, we do it in Brazil. That they kept fighting for so long is a shame on both.

- Gossip about baseball players' contracts is not sports writing.

So here is my rant. I'm complaining so that I don't forget the good reporting that gets drowned in the junk: exposing ineffective protection of workers against poisonous chemicals, the role of slavery in the Northern industrial revolution, citizen science...

22 março 2013

Obama em Jerusalém

Lindo discurso do Obama em Jerusalém. Não vou fazer nenhum comentário porque ele falou tudo que eu poderia dizer, e muito melhor. Estou cheio de orgulho do meu presidente.

Mas é interessante usar a oportunidade para olhar para a mídia brasileira. Quem quiser procurar alguma cobertura na assim-chamada "imprensa alternativa", que sempre tem algo a dizer a respeito do Oriente Médio, vai ouvir um silêncio ensurdecedor, e muito sugestivo. As reportagens dos grandes jornais também deixam a desejar, fora o @Gugachacra que modestamente concordou com os pontos do discurso em vez de dizer que foi Obama que concordou com o que ele escreve no blog.

13 março 2013

Teoria ludopédica do controle

Os diversos objetivos e índices de mérito utilizados na teoria do controle ótimo podem ser entendidos por suas aplicações ao futebol. O objetivo do quíper é minimax: diminuir o quanto possível o aproveitamento do adversário em cada peleja. Os infames frangos devem ser evitados pelos bons profissionais. Em raras ocasiões um goleiro fica famoso por uma defesa impossível - ele se chama Gordon Banks - mas o caminho para o sucesso embaixo dos arcos é o minimax, não os momentos espetaculares.

O objetivo dos beques é a maximização do desempenho médio, critério conhecido em controle como norma L1. Contanto que o zagueiro tenha um desempenho consistente, erros ocasionais podem ser desculpados, e momentos de brilhantismo são elogiados mas dispensáveis. Já os alfos objetivam o melhor desempenho médio quadrático ou norma L2: os passes e tentos geniais valem mais no meio de campo do que na zaga, mas não dispensam a eficiência no desarme e a permanente visão de jogo.

E os avantes usam o critério maximin. Craque, na linha, é quem sempre faz seu golzinho. Ninguém se lembra de quantos gols o Ronaldo deixou de anotar - o artilheiro é famoso porque a cada jogo da Copa ele carimbava a rede, desequilibrando a partida e garantindo a vitória do Timão Brasil.

São esses os critérios de controle ótimo usados pelos bons jogadores de futebol, ainda que expressões matemáticas não sejam aplicadas explicitamente.

08 março 2013

O legado do Chávez

Alguém escreveu em algum canto que Hugo Chávez apesar de seus defeitos deixa um legado.... Eis minha resposta:

Como assim as instituições permanecem? O vice-presidente não sabe quem é o presidente!

Desconheço lei venezuelana, mas numa situação normal, o vice-presidente que foi eleito para o cargo assumiria sem qualquer crise. Na Venezuela, tiveram que arrumar uma desculpa esfarrapada para dispensar a posse, e agora querem fazer uma nova eleição, porque o próprio vice não acha que tem legitimidade nenhuma - ou seja, o regime entende que o poder todo era pessoal do Chávez. Não sou eu dizendo isso, é o próprio vice!

Na minha opinião isso é um retrocesso enorme. Ainda não sabemos qual o preço que a Venezuela vai pagar pela desligitimização das instituições republicanas e pela imposição do poder pessoal. O único legado do Chávez é alertar às nossas elites para o que pode acontecer com o país se tratarem as massas como as elites latino-americanas de hábito fazem. O chavismo serve de advertência para não matarem a galinha dos ovos de ouro. Só.

26 fevereiro 2013

Eleições horrorosas em 2014

Vou fazer uma previsão: as eleições daqui a 2 anos vão ser nojentas e desanimadoras. Para presidente, o PT vai concorrer contra uns candidatos fraquíssimos. Os tucanos, a única oposição, gastaram seus candidatos antigos e não renovaram - sobrou o ex-governador de Minas que dizem hoje ocupar uma cadeira no Senado, mas pela atuação apagada ninguém saberia. Marina e os verdes desperdiçaram os votos da eleição de 2010 brigando um contra outro. Tem também um coronel de um partideco de aluguel no qual só presta o Romário.

Então a estratégia da Dilma é simples: torcer para a Argentina não implodir ainda esse ano. Porque se isso acontecer o eleitor pode perceber que a política voluntarista do PT é a mesma que está afundando os hermanos. Pior do que a reeleição, só mesmo algum outro candidato do PT, então se a implosão da economia demorar um pouco mais vamos ter que nos conformar.

Em S Paulo, o governador ausente, apalermado com um caso agudo de síndrome de 3o mandato, vai tentar a reeleição, apesar da morte do meu feirante. O único nome novo da oposição estadual não pode concorrer porque está começando o mandato de prefeito. Sobram os fracassos reconhecidos do PT, e o Kassab, que apesar de ter saído impopular da prefeitura talvez seja o menos pior.

E o Sarney continua governando as demais capitanias, como faz desde as ordenações afonsinas.

01 fevereiro 2013

Turismo sem Fronteiras e exportação de guaraná

Brilhante ideia do genial economista Goldbaum: o programa Turismo sem Fronteiras, através do qual o BNDE Social financiaria viagem de brasileiros ao exterior com o objetivo de aumentar as exportações de guaraná e goiabada.

O inspiração veio desse artigo de Armando Castellar, que nos lembra que a esperança de exportar motiva políticas industriais e concorrenciais do governo atual. Mas como só brasileiro bebe guaraná, temos que mandar turistas para o exterior. Está sobrando dólar de qualquer jeito.....

27 janeiro 2013

Se acaso distúrbio entrasse

Se acaso distúrbio entrasse
O processo seu, perturbasse
O equilíbrio em que você
O abandonou.

Será que tinha uma margem
Para manter a estabilidade
O controle que um dia você
Já projetou?

Eu falo por que o seu modelo
Ainda que bem identificado
Exibe um ganho errado
Não falo nem no fasor.

Em regime oscila um pouco
O transitório é meio louco
Assim se ajusta um controlador.

(Já é bem antigo, será que eu ainda não tinha postado?)