Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

18 setembro 2013

Currículo de engenharia elétrica na Poli, 1

Em todas as provas que dou o uso de calculadoras, computadores, e internet é livre, bem como todas as formas de consulta. É uma decisão minha de alguns anos atrás, mas não exatamente uma política nova: talvez eu tenha dado uma prova sem consulta antes da www chegar ao Brasil, mas não lembro mais.

http://fmpait.blogspot.com.br/2013/08/uso-da-internet-livre-em-provas.html

Quanto às optativas, o problema que criamos é que a elétrica está prevendo 8 disciplinas obrigatórias por semestre nos 3 primeiros anos. Isso foi atingido sem romper o limite de 28 horas de aula semanais através de uma engenharia de grade horária que criou disciplinas com 2 ou 3 créditos. Mas como os alunos sabem cada disciplina é uma disciplina, com suas exigências, provas, e matéria. Vai sobrar muito pouco espaço mental ou tempo de estudo para optativas, para matérias que relacionam diferentes áreas da Poli, ou matérias que estimulam a criatividade - Práticas II por exemplo será eliminada.

A implementação proposta da EC3 na elétrica se choca de frente com a proposta da EC3. Essa em grande parte me parece coincidir com o desejo dos alunos conforme expresso em sua mensagem. Os únicos argumentos que ouvi a favor da implementação da EC3 proposta para a elétrica são os seguintes: 1 - ela atende aos interesses dos departamentos e dos laboratórios de ocuparem espaço na carga horária dos alunos; 2 - a proposta já foi aprovada e portanto não pode ser modificada.

Esses argumentos são muito fracos. Eu acho que a implementação da EC3 proposta para os 3 primeiros anos de engenharia elétrica é um desastre completo e que portanto ela deveria ser abandonada em favor da proposta original da EC3: a cada semestre 7 matérias de 4 créditos cada, sendo uma optativa livre a partir do 2o semestre. É necessário reconhecer que as discussões na elétrica criaram uma monstruosidade e jogar fora o resultado, eliminando a proliferação de matérias e detalhamento de conteúdos que vão inevitavelmente ter resultados contraproducentes. Um problema prático adicional é que as meias disciplinas e as disciplinas com 3/4 de carga horária vão tornar os horários individuais de estudantes que repetirem alguma matérias ou tentarem fazer alguma optativa um completo pesadelo.

http://fmpait.blogspot.com.br/2013/05/horarios-na-poli.html

Estou respondendo a todos por desencargo de consciência: assim como a implementação da EC3 está sendo encaminhada na elétrica o curso vai ser muito problemático e pouco atraente, e não vai satisfazer os anseios e demandas dos estudantes, mesmo com os melhores esforços dos professores responsáveis por cada disciplina. Se as coisas forem realmente feitas da forma como estão sendo encaminhadas, não quero ter na minha consciência a culpa de não ter dado minha opinião, seja por timidez ou por receio de ofender alguém. Posso não ter tido competência para expor meus argumentos de forma convincente aos colegas, mas não assumo a culpa da omissão, indiferença e indolência.

(...)

Verdade, as discussões foram abertas e o processo foi conduzido de forma transparente e adequada. Porém o resultado é ruim. Arrisco dizer que o excesso de atenção aos conteúdos das disciplinas não facilitou resistir à tentação de micro-administrar as atividades didáticas de cada aluno, mas outras interpretações são possíveis.

Não é importante tentar explicar o que deu errado, nem defender a condução do processo. O importante é o que fazer agora.

Há 2 alternativas. Uma é reconhecer que, apesar da boa condução do processo, o currículo não atende aos objetivos. Podemos aproveitar os trabalhos exaustivos sobre os conteúdos específicos de cada disciplina, mas é necessário descartar a grade curricular inchada e inflexível.

A outra é se apegar com orgulho ao resultado do processo e do nosso trabalho, implementar o currículo da forma como foi proposto, e conviver com um curso problemático por muitos anos. (O nome disso em economês é a falácia dos custos irrecuperáveis, sunk cost fallacy, exemplificada pela frase "não podemos deixar de casar apesar de não gostarmos um do outro depois de tudo que já pagamos pela festa do casamento".) Nesse caso vamos esperar os grandes e completamente previsíveis problemas se manifestarem para depois acionar o lento processo de mudanças. Daí a cada ano vamos tentar fazer pequenas mudanças em cada disciplina para resolver um problema que é causado não pela condução de cada disciplina individualmente mas pela estrutura incorreta na qual elas foram encaixadas. Não vai dar certo.

Essa 2a alternativa convém para quem fica melindrado com opiniões divergentes e evita conflitos com os desejos de laboratórios ocuparem espaços, mas é a pior para estudantes e para a universidade. Podemos escolher.

(28 e 29 agosto 2013)
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