Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

15 julho 2014

Os técnicos brasileiros têm medo de craque

Sempre há alguma desculpa de contusão, real ou inventada, mas os técnicos brasileiros têm medo de craque. Vejamos o histórico depois da era Pelé.

Em 1974 Zagalo deixou Ademir da Guia no banco. Mesmo que não ganhasse da Holanda, com o craque que Zagalo desprezou o time teria deixado uma lembrança melhor.

Em 1978 Claudio Coutinho deixou em casa o melhor jogador brasileiro, Falcão, que junto com Zico bem podia ter montado um gol na Argentina, ou pelo menos evitado aqueles empates feios na 1a fase.

Em 1982 o Telê que era o Telê montou um time sem centroavante porque suspeitava que Reinaldo, o grande centroavante brasileiro, era homossexual. O preconceito do treinador resultou no ponto fraco do excelente time.

Em 1986 o time já não era o mesmo, mas foi eliminado sem perder e levando só um gol.

Em 1990 Romário não estava no time do piacere io sono il Papa. Só não ficou fora em 1994 porque a seleção sem ele nem ia para a Copa. Parreira não podia excluir Romário, que classificou a seleção contra o Uruguay, e teve que apelar deixando o vice craque Raí no banco. Com isso quase entregou a Copa. Em 1998 novamente Romário foi preterido, pelo Zagalo.

Em 2002 o Brasil ganhou todas. O Felipão criou uma aura de não ter medo de craque.

Em 2006 tinha bastante ex-craque em atividade.

Em 2010 os craques Neymar e Ganso teriam que estar no time nem que fosse só para assistirem a Copa, como Maradona em 1978 e Ronaldo em 1994. Teriam encontrado um lugar num time sem estrelas.

Em 2014 #nãotevecopa

10 julho 2014

Os dinamarqueses têm um ditado: "Hvad udad tabes, skal indad vindes."

Os dinamarqueses têm um ditado: "Hvad udad tabes, skal indad vindes." O que foi perdido por fora, será ganho por dentro. Após perder um bom pedaço de seu território nas guerras de Bismarck, a Dinamarca se voltou para dentro, cultivando terras inóspitas e charnecas no interior do país e, mais importante, fortalecendo as instituições e a coesão social do povo. A resposta à derrota de 1864 é crucial para a formação do país mais feliz e próspero do mundo.

O Brasil não se mete em guerra. Quando é metido, escolhe bem os aliados. As 3 vezes guerras em que o Brasil esteve terminaram com a rendição incondicional do agressor. Estamos invictos, e somente os insanos atacam o impávido colosso.

Mas levamos a sério as vitórias e derrotas no futebol. Talvez o esporte sirva como sucedâneo para a batalha, uma droga huxleyana com efeito social. Talvez até entre os briguentos europeus. Seja como for, entre nós os jogos decisivos são lembrados por gerações.

O que perdemos para os outros, vamos ganhar para nós. Acertar a educação e a ciência no Brasil, porque educação e ciência são as únicas coisas que ajudam a felicidade e prosperidade de uma nação, mais do que conquistas econômicas, militares, ou esportivas. Reformar a administração dos esportes no Brasil e varrer a corja de ladrões que ocuparam a CBF e outras associações e ministérios esportivos. Porque não aproveitar a oportunidade para limpar os corruptos da política?

E tratar uns aos outros com respeito, inclusive os jogadores e técnicos de futebol que fizeram o que conseguiram no campo. Quem joga melhor do que eles, quem nunca perdeu uma partida, quem já marcou mais de mil gola, até tem o direito de criticar. Quem já perdeu de 14x1 sabe como eles se sentem. Por patriotismo, dê ao seu trabalho uma dedicação especial, trate com decência seu compatriota, e eleja bons políticos. Um jogo de futebol perdido vai ser um futuro ganho.

30 junho 2014

Péssima escolha do Aécio

O senador Aloysio não acrescenta nada à chapa. Nem mais à esquerda, nem mais à direita. Nem mais ao norte, nem mais ao sul. Agora são 2 homens brancos, políticos profissionais. Não tenho objeção ao senador, mas não é um nome novo e não vai trazer nenhum voto que não era garantido para o partido. Aécio escolheu um vice para agradar os velhos caciques tucanos. Mais uma prova que o PSDB não se renova.

13 junho 2014

E falavam do Galvão

A cobertura da Copa nas redes sociais está pior que na TV. Quem é petista só fala do show midiático do Nicolelis. Quem é antipetista torce até contra o exoesqueleto.

Petista só fala na maravilha que é o estádio e nos belíssimos viadutos dos estados governados pelo seu partido. Antipetistas culpam o Lula pela seca e pela chuva, torcem pelo gol contra e pelo erro do juiz.

Imaginem se o povo que escreve no Facebook governasse o país? Estamos melhor com os políticos, e assistindo rede Globo.


10 junho 2014

Previsões do Nate Silver para a copa

Acho que as previsões do Nate Silver para a copa estão certas: o Brasil tem quase metade de chance de ganhar, bem mais do que estimam os apostadores.

O fato é que as jogadas mais efetivas da Alemanha e da Argentina - a saber, quebrar a perna do jogador adversário sem levar punição - não são muito eficazes contra o time da casa. É sabido que a vantagem do time da casa é que o juiz tem receio de se deixar subornar pelo adversário, em consideração à reação da torcida. Dizem que esses alemães são menos grossos, mas não vai ser numa copa que vão mudar a personalidade do time. Idem para os argentinos, mesmo com Messi. Enfrentar o Brasil sem dar canelada, só é o estilo da Espanha e França.

Então as possibilidades de alguns dos principais adversários do Brasil ficam diminuídas. Vamos ver se chegou o fim da era Dunga.

08 junho 2014

Motivos para não estar entusiasmado com a Copa

1 - A corrupção da FIFA passou dos limites.
2 - O desperdício com estádios é desanimador.
3 - Os 20 anos da era Dunga acabaram com a alegria do futebol. Certo que o Brasil ganhou 2 vezes, apesar dos esforços em contrário da cartolagem, mas os papelões de 2006 e 2010 cortaram o ritmo de torcer.
4 - O Corinthians foi campeão do mundo em cima do Boca; talvez só isso baste, e torcer para seleção fosse só para compensar os fracassos do futebol de várzea.
5 - Depois de 3 anos como técnico de futebol infantil, ganhei uma vaga noção de quanto um técnico pode atrapalhar e não quero ver mais.
6 - Neymar e mais quantos? Não conheço os reservas da segundona da Turquia.
7 - O regulamento da Copa é um lixo: 3 jogos que não contam nada, depois 4 jogos eliminatórios, a maioria decididos ou por pênaltis ou por erros de arbitragem. Talvez isso fosse tolerável quando éramos analfabetos, mas hoje m torneio de jogos aleatórios é frustrante.

Ou então estou só demorando para engrenar. Vamos ver no final da semana.

06 junho 2014

Uma universidade não é uma empresa

Imito aqui o título de um genial artigo do Paul Krugman, A Country is Not a Company. Enquanto ele compara e explica direitinho as diferenças, eu vou colar apenas o título e dar uma explicação meramente operacional.

É que as pessoas, tanto as da universidade, como as da empresa, que acham que uma universidade é a mesma coisa que uma empresa, ou não sabem como funciona uma universidade, ou não sabem como funciona uma empresa. Em muitos casos não sabem nem um, nem outro.

As pessoas que sabem, mesmo que só em linhas gerais, como funciona uma universidade, e como funciona uma empresa, entendem que são instituições diferentes.

(Claro que há pessoas que não sabem nem o que é uma universidade, nem o que é uma empresa, e mesmo assim acham que são coisas diferentes. Logicamente, isso não tem efeito sobre o argumento, então podemos ignorar esse caso não tão incomum.)

05 junho 2014

Calendário trimestral

Já que uns 2 ou 3 gatos pingados leram meu último post, vou dar mais uma sugestão, sem pretensão de originalidade: devíamos adotar calendário trimestral na USP, com 4 períodos por ano. Antes e depois de uma conferência visitei colegas na California, onde muitas universidades estaduais adotam calendário trimestral, e me convenci que seria uma boa ideia na USP.

Na Poli não é novidade: a pós graduação e os cursos cooperativos já adotam, embora a maioria dos cursos de graduação continue no calendário semestral. Há vantagens: o trimestre é mais curto; para a maioria das disciplinas, honestamente, um semestre é tempo demais. Para as disciplinas anuais, não faz diferença: em vez de Cálculo 1 e Cálculo 2, ensina-se Cálculo 1, Cálculo 2, e Cálculo 2, no mesmo número de meses. O curso trimestral fica menos quebrado por feriados, provas, e semanas do saco cheio. O curso trimestral aumenta a flexibilidade de organização da quantidade de material ensinado, e portanto facilita fazer todas as disciplinas com o mesmo número de horas semanais. Isso simplifica os horários, que atualmente na USP causam uma infinidade de conflitos. Finalmente, eventuais reprovações atrapalham menos os alunos. Cursos extras de reposição poderiam ser oferecidos no 4o período, melhorando a utilização do campus que durante as atuais férias fica subaproveitado.

Adicionalmente, o curso trimestral facilita a mobilidade internacional. Nossos semestres não se casam bem com os semestres de outros países. Sempre temos alunos chegando um pouco atrasados enquanto concluem seu período de estudos no exterior. Com 4 períodos anuais, de preferência correspondendo mais ou menos às estações do ano, fica mais fácil para os estudantes encaixarem estudos no Brasil e no exterior.

Os únicos prejudicados vão ser aqueles professores cujos cursos são grandes demais para 3 meses e pequenos demais para 6 meses; aquelas matérias que só cabem em 4 meses, e não podem ser ensinadas de outra forma. Se existir algum assunto assim tão inflexível, provavelmente já deveria ter sido eliminado do currículo há décadas.

04 junho 2014

O rombo no orçamento da USP - modesta contribuição

Custo mensal de estacionamento na cidade de S Paulo: R$300.

Número de veículos que entram no campus da USP diariamente: 50 a 100 mil (minha estimativa).

Subsídio anual aos usuários de automóvel, não disponível para pedestres, ciclistas, ou usuários de coletivo, implícito na gratuidade do estacionamento no campus: 200 contos de réis ou mais.

Rombo no orçamento da USP causado pelos gastos fora de controle na gestão Rodas: 5%, considerando apenas os gastos com pessoal.

Orçamento anual da USP: uns R$5 bilhões, 5 mil contos, vou chutar para não gastar tempo do contribuinte tentando cavar os números recentes exatos.

Fração do rombo com pagamento de pessoal que poderia ser coberta através da cobrança de estacionamento: entre 80% e 120%, aproximadamente.

Proposta da direita para diminuir o rombo: acabar com a universidade pública e gratuita (com as consequências inevitáveis).

Proposta da esquerda para diminuir o rombo: controle social da universidade (todo poder aos sovietes).

Número de professores favoráveis à cobrança de estacionamento para todos os automóveis que entram no campus, inclusive os de propriedade de professores, funcionários, alunos, e visitantes em geral: 1 (por enquanto, sou eu).

Se houver mais alguém favorável, por favor indique nos comentários.

02 junho 2014

Where do I go from Yale?

In May I spoke at a panel on global careers, part of a career event aimed at current graduate students called "Where do I go from Yale?". My notes:

1 - Our work is important. Even when conventional success is not immediate. The relevance of academic work is hard to measure and does not always correlate with credentials and achievements, nor with grants and publications. But the work is important, and this is why after graduate school you will find a place somewhere in the world to do your work.

2 - We know Yale as a 1st rate research university. Research in integral with an astonishingly successful education system. many institutions throughout the world are making an effort to learn from the American academic research model. The aspect of a liberal arts education is as important, and perhaps less well understood abroad.

(I am certain about Brazil, and I suspect this is true for many emerging scientific environments.) Understanding the connection between research and education at Yale will enhance your contribution - in academia or in business, abroad or in the US advising students from different places.

3 - Your work is good. Publish it. Go to conferences. Talk to people about what you do. Listen to people who say interesting things. People you meet at your first conferences are friends who will sustain you throughout your career.

(Personal aside: I learned about the job I still have in Brazil from my college buddy while I was at Yale. In the meantime, I worked for a couple of years at a Boston company I learned about through a graduate students of an academic friend.)

4 - Get your personal life in shape. Family life means different things to different people. Your need to find what works for you. To support and to be supported are especially important in international careers. Do it. Jobs, visas, languages, housing.... that will follow.

5 - Academia is becoming more international. It used to be that you could only find a job in a country where you "belonged"... or in the United States and select other few. Academic and business cultures everywhere are becoming more "American". You can work things out even if "you are not from there".

01 junho 2014

Diálogo tuitado

@EternoAmorim  May 31
Não há o que temer. O Decreto 8.243 está em conformidade com as principais democracias do mundo, como Cuba, Venezuela, Rússia, China e Irã.

@pait  May 31
Esse decreto 8243 é bom, porque o congresso burguês não teria aprovado. Tem que ser por decreto. Todo poder aos sovietes! @EternoAmorim

‏@EternoAmorim
@pait Exato. Quem deve pautar as ações públicas são as forças progressistas, independente de onde estejam, como defende o Ministro Barroso.

@pait  May 31
@eternoamorim Porque se cumprirmos a Constituição burguesa, esperarmos o Congresso debater a leis….

@pait  May 31
@eternoamorim … o País nunca será uma democracia popular de partido único. O executivo tem que tomar a iniciativa.

‏@EternoAmorim  May 31
@pait Eu diria que hoje o judiciário também se torna democrático, progressista e amigável ao povo.

‏@pait  May 31
@eternoamorim Hoje. Porque ontem não era.

‏@pait  May 31
@eternoamorim As instituições são substituíveis. Apenas os grandes líderes são indispensáveis.

@EternoAmorim  May 31
@pait Como Nosso Guia. Cito Marilena: "Quando Lula fala, o mundo se ilumina".

‏@pait  May 31
@eternoamorim E quem não se deixa iluminar, tem que se aposentar.

‏@pait  May 31
@eternoamorim "a teoria da relatividade mostrou que as leis da Natureza dependem da posição ocupada pelo observador" http://fmpait.blogspot.com/2010/03/convite-filosofia.html?spref=tw …

@EternoAmorim  May 31
@pait Confesso que física quântica não é minha especialidade, mas admiro a interdisciplinaridade Descartiana de Marilena.

@pait  May 31
@eternoamorim Importante é a aplicação à política. O significado maior da obra de Einstein é que Nosso Guia está certo mesmo quando erra.

29 maio 2014

Copa no Brasil custa "só" um mês de educação; nos EUA, uma hora e meia

Copa custa só um mês de gastos com educação, vangloria-se o siteDilmaRousseff no Facebook, citando cálculos da Folha.

Em comparação, a Copa de 1994 nos Estados Unidos custou $370 milhões de dólares. Pouco mais da metade de um milésimo dos gastos anuais com ensino público fundamental e secundário no país.

Em resumo, a Copa custou entre 100 e 200 vezes mais do que deveria. Achávamos que o percentual de superfaturamento tinha sido uns 200% em relação ao orçamento inicial. A comparação com a educação mostra que os desperdícios foram impressionantes 20000%. #Dilma #Fail

16 maio 2014

Dia triste

Hoje foi um dia triste, quem me segue nas redes sociais sabe. S Paulo tem mais de 7 milhões de proprietários de automóvel. Um desses tirou a vida de uma pessoal muito boa. Excesso de velocidade, falta de prudência, excesso de álcool, falta de manutenção? Não sei.

Mas como a vida continua e não consegui concentração para preparar uma palestra sobre otimização livre de derivadas, fui cuidar da burocra. Entre uma ordem de pagamento e um notário público para o consulado sentei para arroz e feijão num restaurante brasileiro novo, pequeno, que apareceu em Allston do outro lado da rua do antigo Café Belô que pegou fogo há anos.

Tinha um paulista que não vai no Brasil há anos reclamando do PT, dos bagunceiros, do preço da coxinha na lanchonete do aeroporto de Guarulhos, dos larápios que roubaram uma mala cheia de perfume que a amiga dele comprou em Miami. Essa parte não tinha graça. Mas daí entraram na conversa um outro freguês e o dono da lanchonete, depois de acabar o prato feito pedi um guaraná para ficar ouvindo.
A lanchonete vende muita marmita, entregas quase todas em Brookline porque lá tem muita reforma. Porque comer lanche é ruim. 7 dólares você compra só um sanduíche, comida mesmo é arroz e feijão, custa 11 e você está alimentado. Para trabalhar precisa comer direito. E tem muito trabalho! O que tem de reforma lá em Brookline. Acabei de quebrar uma cozinha em Everett, semana que vem volto para refazer tudo. Só que tem gente que não quer trabalhar. Com tanta reforma, tanta disha, quem não está bisado é que não tem vontade de trabalhar. Lá na praça sempre tem uma dúzia de sujeitos só esperando trabalho. Passei lá e ofereci 15 por hora, 4 horas garantidas, todas as despesas pagas, para fazer uma mudança, serviço fácil, só botar no caminhão e depois descarregar. Não quiseram, pediram 25 pesos. Então arrumei outro, aquele ficou esperando serviço na pracinha. Outro dia na volta do serviço comi numa lanchonete em Everett e falei com uns americanos. Me explicaram que os americanos não querem qualquer tipo de serviço porque têm orgulho. Mas orgulho de quê? Uma crioulo desse tamanho muito mais forte do que eu ficar na porta do 7-11 pedindo esmola? Que orgulho é ficar sentado na praça esperando serviço, com tanta reforma em Brookline?
É isso que ouvi. Custou uma guaraná. Aula de sociologia popular por 2 pesos.

What Can the World Learn from Educational Change in Finland?

Just before going to an academic conference in California, to which I still have to prepare a talk, I heard a lecture by Pasi Sahlberg, author of "Finnish Lessons: What Can the World Learn from Educational Change in Finland?"

Some notes, paraphrasing things he said which resonated strongly:

  • Everyone who thinks Finland has the best schools in the world is abroad. 
  • Don't try this at home. Education models travel poorly. Can't be copied as a whole.
  • Where do you get your ideas about education? From the USA. 
  • Almost all schools in Finland are the same. Anyone can attend school free. 
  • Teach less learn more. 
  • Test less learn more. 
  • School starts late in Finland, age 7, students graduate from high school age 19. 
  • Equity drives quality. 
  • Too much testing in Massachusetts. Weighing the pig doesn't make it fatter. 
  • Children must play. Article 7 declaration rights of children. More recess.
  • ADHD probably exists but most are suffering from childhood. 
  • Why do you Americans talk so much about your children's education? 
  • Good player plays where ball is. Great player, where ball is going to be.

10 maio 2014

Jan Talpe, ex-professor da Poli

Deu no site da Adusp: Polícia Federal tenta deportar padre belga Jan Talpe, de 81 anos, ex-professor da Poli torturado e banido em 1969.
Há um lado feio e outro bonito nessa história. Bonita é a decisão do juiz considerando que leis e medidas da época do arbítrio não têm valor legal na nossa democracia. Um ponto para a liberdade!

Feio é saber que o padre belga era professor da Poli quando foi perseguido pela ditadura. Se é lembrado nas histórias oficiais, confesso minha ignorância. Particularmente lamentável a posição do Prof Fadigas, então reitor da Poli na época da lamentável trinca Reale-Buzaid-Gama e Silva, descrita em artigo citado.

O preço da liberdade é a eterna vigilância. O juiz estava vigilante; a Poli precisa acordar.

19 abril 2014

Notes from Tufte workshop

I have just found my notes from a 1-day workshop with Edward Tufte that I attended in March. For my records, here are my takeaway points.

1 - Every meeting starts with a document. A 2 to 4 page handout, for shorter meetings. That includes lectures and classes.
2 - Study hall. After handing out the document, give people time to read. Don't expect people to read in advance - it is during the meeting that you have their attention.
3 - Flatness. It is easier to read data in a page than across several pages. Graphs and tables with more information are better. Spreading information over time in slides makes it unreadable.
4 - Whatever it takes. It doesn't matter how you produced the display, use what works.

Most important: don't hide your data and your documents behind Powerpoint. The audience can and will read the complete material. They don't need or want to wait for you to read it to them.

12 abril 2014

Six stages of Olympics

Michael Pirrie, adviser to Sebastian Coe, describes the 6 stages of an Olympic organization:

1 - Euphoria at winning the bid,
2 - Shock of understanding the scope,
3 - Rise of instant experts who had been against the project,
4 - Persecution of the innocent for minor flaws,
5 - Successful Olympic Games, and
6 - Glorification of the uninvolved.

Can apply to other types of projects as well. The quote in full is in today's NYTimes.

“There’s the euphoria of winning the bid, then the shock of understanding the fully massive scale of what’s required,” Pirrie said in an interview. “Then there’s the rise of the instant experts, the people who said you’d never win the bid or that your city or country didn’t need the bid but now are telling you how to deliver the Games. “Then you have the persecution of the innocent, whereby anybody connected to the organization of the Games is somehow responsible for any major or minor detail of the planning going slightly awry. Then you have the successful delivery of the Games, with the help of the volunteers and everyone involved. And then, finally, you have the glorification of the uninvolved, all the people who sat on the sidelines and watched it all evolve and then suddenly were the ones who helped deliver it.”

10 abril 2014

Os Donos do Dinheiro - Formação do Patronato Financeiro Americano do Século XXI

Lendo a resenha de Os Donos do Dinheiro - Formação do Patronato Financeiro Americano do Século XXI. Não é o título original, mas seria uma tradução analógica. Pergunta: porque a taxa de retorno r líquida do capital subiu a valores próximos a 4% ao ano, após um século de juros baixos? Krugman menciona que impostos sobre renda-sem-trabalho diminuíram, e que houve destruição de capital no século 20. Mas será que os juros aumentaram por outro motivo?

04 abril 2014

Cultura, extensão, e figuras de linguagem

Sou informado que "em 2014 não será realizada nova edição do Programa de Editais da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária".

1a pergunta: Que me importa a edição de editais?
2a e mais interessante: Qual a figura de linguagem?

Sinédoque: a parte pelo todo, "edital" substitui "papelada".
Catacrese: a mesma palavra editais indica "o-que-não-se-pode-falar"; cultura seria o termo correto?
Metonímia: "programa" pelas "bolsas".
Eufemismo: "não será realizada" quer dizer "acabou a bufunfa".
Metáfora: a diácope "edição do programa de editais" significa "atividade-fim da universidade", vulga "burocra".

A mensagem prossegue em circunlóquio: "Nesta gestão viso avaliar e aprofundar a política de qualificação dos programas de fomento da PRCEU, por isso, o Programa de Editais, este ano, num primeiro momento será objeto de acompanhamento, avaliação e divulgação dos resultados das edições 2012 e 2013, para aperfeiçoar em suas próximas edições os focos de atenção, modalidades de financiamento, efeitos pretendidos e perspectivas."

Mais algumas figuras:

Antítese: "aperfeiçoar" e "não realizar".
Ironia aqui me tens de regresso: "este ano ... divulgação dos resultados das edições 2012 e 2013".
Pleonasmo literário: avaliar, aprofundar, acompanhar, divulgar, aperfeiçoar.
Pleonasmo vicioso: avaliar e avaliação.
Elipse: sujeito de "aperfeiçoar" está oculto.
Zeugma, se o sujeito for "eu"; prosopopeia, se for "Programa de editais".
Aliteração: "avaliar, aprofundar, acompanhamento, avaliação, aperfeiçoar, atenção".
Anacoluto: "o Programa de Editais, este ano, num primeiro momento será...".
Oxímoro ou paradoxo, generalizados.

Instigante texto!



16 março 2014

The poor neglected gifted child?

My response to an article about gifted children.

I am somewhat familiar with the issue of very gifted students and I mostly agree with the points raised in the article. Mainly, that society as a whole will benefit from the contributions of those rare students who show unique promise, and that we should not pay less attention to them merely because they are such a tiny constituency who in any case doesn't cause much trouble if ignored.

The article points out one of the problems of programs directed towards the exceptionally gifted - the 1 in 10 thousand, or 1 in 100 thousand, not the mere 1% of us who end up getting PhDs in rocket science like everybody else. Such programs are vulnerable to hijacking by the constituency of the 1% (or 1% wannabes), who are 100 times more numerous. Worse, this group is likely to be self defined by family status and income as much as by truly unusual talent.

But I think the problem with such programs goes deeper. Acceleration for the sake of competition - the aim of those who aspire to be among the 1% most successful - is as likely to harm as to help the truly unique. The reason why it is difficult to design programs for the uniquely gifted is that they are smarter than the people who design the programs. It is the same reason why it is almost impossible to coach an exceptional soccer player - they play better than the coach. (Things may be different in sports where players have rigidly defined roles, or in planned economies where workers have centrally assigned tasks to perform - I am not familiar with such sports or organizations nor do I wish to become.)

It is the nature of unique talent that it doesn't allow itself to be identified by standardized testing. The truly brilliant will benefit from the kindness and encouragement of a good teacher, the sympathy and admiration of the peers who do not necessarily share their talents, and from a school environment that protects their eccentricities and doesn't impede their investigations, much more than they could ever benefit from ambitious efforts to identify brilliance or national laws that screen for giftedness.

For disclosure, I believe that Brookline does a nice job in encouraging truly exceptional talent, that it could perhaps do more, but that we first should do no harm.

OFF TOPIC from now on: Having given my opinion, I cannot resist the temptation to point out a fatal flaw in the Lubinsky study cited in the article. It claims to have studied "a cohort of 320 people now in their late 30s... among the top one-100th of 1 percent". There are roughly 20 million people aged 35-39 in the US. One-100th of 1 percent of them are 2000, of which the Vanderbilt researcher claims to have studied 15%. I think you will agree that identifying 1/6 of such a difficult to define group is completely impossible. Therefore the group tracked must have included not the top 1/10 thousand, perhaps not even the 1/thousand, but more likely the top 1%.

That says that the research conclusions do not reflect the group that it claims to reflect, and reinforces my argument that researchers, who even at top institutions are often not equipped to correctly understand or present the results of their own research, cannot be entrusted to devise programs that benefit the unusually talented. My confidence in the study is not enhanced by the juxtaposition of a quote by the author to one by the head of the Chinese Communist Party.

Alright, I wrote enough already!

04 março 2014

My response to the crisis in greater Sekuron

The basic plan of action is twofold. First, to understand the historical role of the Pontus Euxinus and the Chersonesus, accompany the greatest historian of the Mediterranean in a trip outside his expertise, to antiquity and the remoter past.

Second, to clear up the confusion in the mainstream media about place names imposed by successive illegitimate conquerors, read more on the toponymy of Yiddishland, where we once walked. A helpful web reference is Yiddishland: Countries, Cities, Towns, Rivers.

As for current affairs, news that mention Ades, Yehupetz, Dzhankuye, or Lemberik can only bring sorrow. A repeat of the Yugoslav civil wars: Europeans stir up their respective erstwhile allies from the time of may-his-name-be-blotted, under some vague illusion or pretense that, in the brief time it takes for Europe to forget the lessons of the 20th century wars, they somehow managed to reform themselves without the benefit of American military occupation.

The only difference is that this time the French are quiet, perhaps immersed in their own affairs, and the borderlands of Russia are too far for the English-speaking peoples to be able to pick up the pieces. Which may be for the better, considering the limitations of the do-nothing congress and president in Washington and of the prime-minister of England.

14 fevereiro 2014

Space rovers

Name                          Opportunity               Jade Rabbit (Yutu)
Location                     Mars                           Moon
Planned mission         92.5 days                   Three months
Actual mission           3672 days +               One month
Made in                      USA                           China
Cost                            400 million                unknown

But then, freedom is not free. Nor quality.

04 fevereiro 2014

Incêndios

Nos Estados Unidos, há muito incêndio em imóveis particulares. No Brasil, há muito incêndio em imóveis públicos. Acho impressionante, mesmo sem certeza que são observações estatisticamente válidas.

Porque? Dava uma boa tese sobre relação entre público e privado, automação e segurança, e sociologia da engenharia. Tenho alguns palpites.

30 janeiro 2014

Faculdades de curta duração nos EUA

A reportagem da Fapesp com título "Faculdades de curta duração têm papel de destaque nos EUA" contém um certo número de imprecisões que podem confundir o leitor e dar uma impressão enganosa sobre o ensino superior nos EUA. O assunto é importante e vale a pena fazer as correções necessárias, motivo pelo qual enviei a correspondência abaixo ao ilustre pesquisador através de seu blog. À parte esses 3 pontos mais importantes, há também na reportagem da Fapesp outras afirmações polêmicas ou cuja justificativa é duvidosa, mas me parece que os parágrafos abaixo indicam os pontos onde a interpretação do texto pode conduzir aos maiores erros.

Prezado Prof Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes,

Li reportagem da Fapesp a respeito de sua pesquisa e notei alguns pontos que podem conduzir a interpretações imprecisas.

Um deles é a menção ao custo de Harvard como exemplo de elitização. Pelo contrário, são justamente as universidades mais endinheiradas como Harvard que admitem estudantes sem considerar a capacidade financeira - Yale, Harvard, e outras escolas ricas oferecem bolsas a todos os alunos admitidos que não tenham possibilidade de arcar com os custos do estudo.

Outro ponto é a classificação entre escolas privadas, escolas públicas, e escolas com fins lucrativos. Embora essa categorizarão seja comum no sistema de ensino brasileiro, agrupar universidades estaduais e community colleges dá uma impressão incorreta do sistema norte-americano. As grandes universidades estaduais são muito mais semelhantes às universidades privadas do que aos community colleges.

E existem também os liberal arts colleges, que se dedicam mais ao ensino que à pesquisa, mais uma vez destoando da classificação apresentada. Estas instituições oferecem cursos de 4 anos e uma educação muito semelhantes às universidades de pesquisa, e incluem diversas escolas que só podem ser consideradas de elite, por exemplo Swarthmore College ou Amherst College. Tenho a impressão que na estatística citada no artigo, segundo a qual os community colleges, com cursos de 2 anos, recebem mais da metade dos calouros, os 4 year colleges não associados a universidades foram incluídos com os community colleges de 2 anos, o que é um erro.

Recomendo a atenção a esses pontos que podem confundir o leitor, prejudicando o entendimento do estudo e diminuindo seu impacto. Sinceramente, F Pait pait@usp.br

17 janeiro 2014

Manchetes enganosas nos jornais acusam prefeitos

O Estadão e a Folha trazem reportagens com acusações contra o prefeito anterior e políticos ligados ao prefeito atual. Não tenho como avaliar quanto das acusações são verdadeiras, mas as reportagens são um desserviço ao leitor. Ao contrário do que dizem as  reportagens, a testemunha (que parece anônima) não afirmou que o prefeito Kassab recebeu dinheiro de corruptos; ela afirmou que OUVIU DIZER que o prefeito recebeu uma fortuna.

A diferença é enorme. Os países que têm lei não aceitam "hearsay" como evidência de crime. Não tenho noção de como a lei brasileira, até onde pode-se dizer que existe, trata fofocas, mas certamente o jornalismo deveria tratar com extremo cuidado. O Estadão ao menos toma o cuidado no corpo da notícia de escrever "uma testemunha protegida disse ter ouvido que..." A Folha nem essa atenção primária toma. A reportagem da Folha, distorcendo o furo dado pelo Estadão, é um atentado violento contra a integridade jornalística.

Os fatos são os seguintes: que há corrupção na prefeitura, todos sabemos; e quando não é combatida continuamente ela cresce. Que o prefeito Haddad está investigando, é bem claro. Que o ex-prefeito Kassab se descuidou de coibir os corruptos, me parece um conclusão inevitável. Não podemos afirmar que nenhum deles tem envolvimento, mas também é impossível provar que não sabiam nada. O resto é picaretagem de politiqueiro, especulação de fofoqueiro, e afobação de jornalista descuidado.

O prejuízo para o país é grande, porque com a estratégia de espalhar acusações para todos os lados o eleitor perde a capacidade de distinguir entre o certo e o errado. Nesse sentido, são coniventes o corrupto, o jornalista, e o eleitor que se apressa a dizer que é tudo igual. 

14 janeiro 2014

WHAT SCIENTIFIC IDEA IS READY FOR RETIREMENT?

Edge.org, a highfallutin sort of scientific blog - don't check it right now because it's unavailable - that people say you should be reading but you're not, probably for a good reasons, asks the all caps question above.

For sure it is the idea that there exist hard and soft sciences, or nonsciences. One wouldn't call it a scientific idea except that it is held by scientists and non-scientists alike, and forms the core of the classification of areas of study for the purpose of university administration. The separations is founded on the fact that science progressed by the analysis of some particularly simple phenomena - simple in the sense that they can be simplified by approximation to involve a small number of factors and therefore can be described directly by consideration of fundamental physical laws. Originally we can mention planetary and stellar motion, and electric currents and magnetic attraction.

Now if you really believe in "exact sciences" go compute the fuel consumption of an automobile using Newton's laws and see how exact your answer will turn out. Or if you believe in non-falsifiable sciences, check out the 5 year old experiment performed in the rich economies - provoking a recession by purely financial methods, following textbook recipes, just to show how right Keynes was.

The fictional division between hard and soft sciences is convenient for academics on both sides, who derive satisfaction from putting down their counterparts because, respectively, they cannot make precise statements, or can arrive at truth from mere experiments. It also serves to track young minds into academic tribes from whose confines few are able to escape. The distinction has no ground on reality and should be retired.

13 janeiro 2014

Programa de campanha para o congresso

Para quem quiser usar, está aqui um programa pronto para concorrer ao Congresso por S Paulo nas próximas eleições. São apenas 4 propostas, com um viés libertário:

1 - Justificativa de ausência em eleição pela internet.
2 - Livre uso do Fundo de Garantia pelo trabalhador.
3 - Hora do Brasil e publicidade gratuita de partidos politicos facultativas no rádio e na TV.
4 - Representação balanceada dos estados na Câmara de Deputados: o voto de cada eleitor tem o mesmo peso.

Argumentação: o voto pode continuar obrigatório como diz a Constituição, mas vamos descomplicar a vida do cidadão que se vê impedido de votar. Os cidadão tem o direito de escolher o melhor forma de gerir os fundos que lhe pertencem, e pode escolher poupar num banco oficial, em outra instituição, ou num investimento que julgue mais rentável para si e para a sociedade. Os demais meios de comunicação não são obrigados a passar propaganda dos políticos de graça, então que seja opcional para todos - os ouvintes decidem se vale a pena assistir. São propostas excelentes, inatacáveis, e de grande apelo popular. Pare de reclamar e defenda sua liberdade!

Apenas o último item exige mudar a Constituição. O constituinte errou ao estabelecer que o eleitor paulista vale 10 vezes menos do que o eleitor de estados menores, em contradição à própria Constituição que estabelece que a Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo. Os deputados paulistas têm a obrigação de lutarem continuamente para corrigir essa injustiça, mas não o fazem. Quem fizer, está eleito.

Quem quiser mudar de emprego, é só fazer essas propostas, receber os votos, e ir para Brasília. Só não vai receber o voto de quem gosta de coisa ruim para poder reclamar. Não tenho nenhuma vocação para a política, e não vou usar meu próprio programa. Estou escrevendo aqui como serviço público, quem adotar ganha fácil.

10 janeiro 2014

El País do B

A edição brasileira do jornal espanhol tem qualidade, mas não sei qual é o público que vai ler. Qual exatamente o produto oferecido? Há 4 possibilidades:

Notícias internacionais para brasileiros. Em parte, é o que o El País do B oferece: em vez de ler os jornais em línguas estrangeira ou de depender de traduções da imprensa local, o brasileiro lê o El País em português. Talvez exista um mercado para esse jornal de qualidade, competindo com a imprensa tradicional por uma fatia de seus prejuízos, mas apesar de ser um serviço barato de tradução, e do valor da marca El País, não vejo como pode ser muito lucrativo.

Notícias brasileiras para brasileiros. Nesse setor, o El País concorre com a imprensa estabelecida com menos vantagens do que no anterior. Talvez não ter que carregar o peso das suspeitas de alinhamento político ajude; será?

Notícias brasileiras para o exterior. Esse me parece um grande filão. Não há fonte regular e confiável de notícias sobre o Brasil disponível para quem não conhece o país e o português. As agências fornecem as notícias, os dados crus, mas isso é insuficiente para entender o que acontece. Business opportunity, para quem estiver procurando.

Notícias internacionais para o exterior. Essa alternativa está aqui por completude, e como piada. Pense em alguém considerando o conceito e sorria.



07 janeiro 2014

Ciência na China e no Brasil

As universidades da China podem ser as melhores do mundo?, pergunta a Folha. Respondo eu:

Professor que escreve para cumprir a meta de publicação de papers é como aluno que estuda para passar na prova: pode ter sucesso, mas raramente vai contribuir para o avanço da ciência. Enquanto existir critério quantitativo, vai haver professor que publica qualquer coisa só por publicar; mas sem critério, vai haver quem não faz nada. Da mesma forma que há aluno que só estuda para a prova, mas sem prova vai haver aluno que nem isso estuda. Na China a pressão para publicar é mais forte, mais centralizada, como é de esperar num regime de tendências comunísticas. No Brasil existe a pressão vinda das burocras, mas é mais avacalhada, como se espera no país do jeitinho. Então a probabilidade é a China subir nos rankings, mesmo com a maioria da produção científica sem muito valor. Mas pela quantidade a massa de pesquisadores juntos devem acabar produzindo algo de qualidade. No Brasil em comparação os grandes avanços vão depender do talento individual, do craque. Vamos esperar que aconteçam os Romários da ciência!

24 dezembro 2013

The Economist's new Latin American column

The Economist is searching for a title for a new column on Latin America. My letter to them:

I suggest Alcântara.

Emperor Pedro II of Brazil, who when not in official capacity used the name Pedro de Alcântara almost as if a commoner, embodies the contradictions and paradoxes of Latin America. An European-blooded King of Brazil, a republican monarch, an abolitionist in a country of slavery, a rare man of culture in his country, the sole Portuguese-speaking nation of a mostly Spanish-speaking continent (at least among the elite). A liberal to some extent, especially with regard to freedom of press, yet the head of state and to some extent of government in a conservative regime.

Other liberal figures in Brazil would be of local appeal: Juscelino Kubitschek, Joaquim Nabuco, or Maurício de Nassau (the fact that he was Dutch would highlight the paradoxes). Juscelino, Nabuco, Nassau, or Tiradentes might be good names for a column about Brazil. I won't suggest names from other countries, because I am sure you will receive better reasoned suggestions from others; but if you do end up choosing a Brazilian name, Alcântara it should be.

19 dezembro 2013

Problemas com a concepção do edifício novo da Poli elétrica

Preparei uma lista de problemas com a concepção do edifício novo da engenharia elétrica da Poli. Há uma nova versão, onde algum dos problemas talvez tenha sido minorado, mas continua parecendo que o esforço de engenharia e arquitetura investido na concepção é mínimo. É importante toda a comunidade politécnica se mobilizar para jogar fora essa proposta, reiniciar a discussão com tabula rasa, para impedir que seja tomadas decisões irrevogáveis com uma pressa injustificada. Alguns dos problema que identifiquei são os seguintes:

1 - Localização inconveniente, atrás do edifício atual, dificultando o acesso.

2 - Necessidade de desfigurar a atual biblioteca, um dos melhores espaços de que dispomos atualmente. Essa descaracterização da biblioteca permanece, embora talvez de forma menos desastrosa, na nova versão apresentada.

3 - Disposição das salas de professores em cubículos pouco atraentes, separados por divisórias.

4 - Um prédio de mais de 2 andares muda a relação de professores e alunos com o espaço que temos atualmente. Se essa mudança é desejável e aceitável, então será que 5 andares é um bom compromisso? Parece ter o preço de quebrar o paradigma atual, sem se beneficiar da verticalização.

5 - A concepção do prédio com circulação de ar totalmente fechada e climatizada tem a vantagem permitir maior densidade de ocupação e controle central do consumo de energia elétrica. As desvantagens são o maior custo de operação, a perda da oportunidade de aproveitar nosso clima ameno, o fechamento para o exterior, e emprego de tecnologias antiquadas, pouco inspiradoras, e sem diálogo com as tendências modernas de sustentabilidade, construção verde, e minimização do impacto ambiental. As desvantagens não foram consideradas.

6 - A concepção do edifício é pobre, essencialmente um paralelepípedo, um desenho que pode ser feito rapidamente usando o demo de um sistema computacional de desenho arquitetônico. Poderia servir para uma central de telemarketing numa localização suburbana adensada, mas não revela nenhuma interação com o entorno da Cidade Universitária nem consideração a respeito da finalidade acadêmica da obra. 

7 - A concepção do edifício não está em diálogo nem com as tradições arquitetônicas da Escola Politécnica e da USP, nem com os desafios tecnológicos do século 21. Não se trata de maquiar o projeto com fachadas e decorações, mas de começar o trabalho com uma concepção atraente feita por profissionais criativos e dedicados.

8 - O projeto nos afasta dos padrões das melhores universidades do mundo. Quando o MIT decidiu construir um novo prédio para a engenharia elétrica, obteve um projeto de um dos melhores arquitetos norte-americanos. Há opiniões diversas a respeito do projeto de Frank Gehry, mas é uma obra viva, à qual ninguém fica indiferente, e que cria um espaço inovador para a vida acadêmica. Yale tem um prédio de engenharia novo, bastante funcional e com certificação LEED Gold, projetado pelo escritório de Cesar Pelli. Os exemplos são inúmeros. Na Europa e na Ásia constroem-se edifícios acadêmicos que atraem alunos e professores para suas instalações ou arrojadas, ou aconchegantes, ou tradicionais. Aqui mesmo na Usp temos o exemplo inspirador da Biblioteca Brasiliana, recentemente inaugurada, entre outros.

9 - Ao construir um novo edifício para a engenharia elétrica temos a obrigação, por respeito à tradição da Escola Politécnica, às futuras gerações de alunos e professores, e às conquistas dos profissionais da arquitetura brasileira, de obter um projeto de qualidade junto aos melhores arquitetos brasileiros.

10 - O projeto foi encaminhado com uma pressa extrema e não justificada, o que explica ao menos parcialmente a concepção pobre que foi apresentada. Não houve a indispensável interação com pessoas compromissadas com a missão acadêmica da universidade.

11 - O escritório de arquitetura encarregado de fazer a proposta não demonstra ter qualquer experiência relevante no projeto de obras de importância. A presença deles na internet é nula. Quem conhece o meio profissional da arquitetura sabe que a primeira providência dos arquitetos praticantes é exibir seu portfólio aos potenciais clientes e interessados. Um escritório que não anuncia suas obras nem é referenciado por outros praticantes da profissão não inspira confiança. Podemos talvez especular que seja um escritório especializado em vencer concorrências públicas para benefício próprio e dos indivíduos contratantes, sem ter a obrigação de demonstrar a boa qualidade de seu trabalho para o uso ao qual se destina.

12 - A grande restrição do projeto parece ser a intenção da prefeitura do campus do Butantã de facilitar a circulação de automóveis pelo campus, em detrimento da mobilidade dos pedestres e da comunicação fácil entre os diversos edifícios e departamentos do campus. Esse objetivo parece condicionar e restringir todas as oportunidades de construção, em prejuízo do acesso a cada unidade acadêmica e da integração entre as unidades. A circulação de veículos no interior do prédio deve se restringir a pessoas com necessidades especiais de mobilidade e a entregas pesadas. Não é admissível que todo o planejamento de cada prédio acadêmico fique subordinado ao desejo de facilitar a circulação de automóveis pelo campus.

13 - Aparentemente o projeto rápido e descuidado está sendo empurrado como base para a discussão, com motivos sobre os quais só seria possível especular. É importante descartar esse lixo e recomeçar a discussão a partir do zero, senão vamos ficar brigando a respeito de pequenos detalhes e acabar aceitando o conceito geral muito ruim.

Acho que esses 13 itens resumem todos os maiores problemas, mas posso ter deixado algo de fora, especialmente no detalhamento do projeto, que parece ter sido feito sem grande atenção ou empenho profissional.

18 dezembro 2013

Genuíno discurso de encarceramento

"Tudo que fiz, fiz por amor à pátria. Pelo Brasil faria novamente o que achasse correto. Onde errei, peço ao povo que me perdoe. Aceito o julgamento da democracia pela qual lutei com a mesma serenidade com a qual resisti à prisão da ditadura. Se vivemos num país onde a justiça vale para o poderoso como para o humilde, minha luta foi vitoriosa".

Só que não. Onde foi que não ouvimos esse discurso?

09 dezembro 2013

Dragagem

Não deixa de ser instrutivo contemplar a dragagem do Rio Pinheiros. Um espetáculo pós-industrial apocalíptico de merda, a engenharia de nossos impostos em ação não deixa de ter estética.

07 dezembro 2013

Eleição do reitor da USP nas próximas semanas

A mais forte candidata ao 4o lugar é a chapa Wanderley Messias da Costa - Suely Vilela. Para a chapa   "Mantendo o Rumo", a promessa de manter na reitoria pessoas ligadas às administrações anteriores dispensa reflexão sobre a universidade e discussão de propostas para seu futuro. A presença dessa chapa entre os 3 primeiros votados seria uma vergonhosa indicação de falta de comprometimento dos eleitores com a universidade.

O candidato mais preparado para administrar a USP em 2013 já era o candidato mais preparado em 2009, 2005, e 2001. Só que como diz o locutor de futebol, o tempo passa. E o tempo passou. A chapa Hélio Nogueira da Cruz - Telma Maria Tenório Zorn não decide se critica a situação financeira supostamente catastrófica deixada pela atual gestão, ou se minimiza os problemas pelos quais os integrantes teriam parte da responsabilidade. O situacionismo encabulado da campanha que foca principalmente aspectos administrativos não convence. Por outro lado é uma chapa que não levanta o risco de surpresas desagradáveis. Diria que é forte candidata ao 3o lugar na lista tríplice.

As propostas mais relevantes são as da chapa José Roberto Cardoso - José Antonio Franchini Ramires. O maior problema da USP é que a qualidade e eficácia do ensino estão muito abaixo do que poderia ser obtido com os mesmos professores e mesmos recursos materiais. A causa dessa deficiência são as burocras irracionais, vinculadas aos grupos de poder da universidade, e apoiadas em entendimentos errôneos ou fantasiosos sobre a ciência e o ensino. A solução, defendida pelo Prof Cardoso, é a flexibilização dos currículos e das carreiras universitárias, aumentando o poder dos alunos e portanto da própria sociedade sobre o estamento acadêmico. As demais propostas da chapa, que também foram copiadas pelos concorrentes, igualmente estão de acordo com as necessidades da universidade. São os únicos candidatos que não têm paúra de criticar ações erradas do atual reitor. A dúvida é até que ponto a chapa conseguirá realizar suas propostas. Infelizmente os donos do poder da USP são reacionários, a viscosidade da burocra tende a impedir o progresso, e propostas de melhoria muitas vezes acabam sendo usadas para reforçar o poder do estamento, com consequências imprevistas.

A chapa mais forte é Marco Antonio Zago - Vahan Agopyan. Ela terá votos nas unidades da USP do interior, que nas últimas eleições têm votado em bloco para bloquear candidatos do campus mais importante da USP. O trabalho do prof Zago na pró-reitoria tornou o nome dele conhecido e bem visto pelos pesquisadores ligados à pesquisa e à confecção de papers, e a presidência do CNPq deve render votos entre eleitores do PT. É uma incógnita, ao menos para mim, até que ponto ele pode ser associado às práticas petistas de aparelhamento partidário de universidades e agências de pesquisa. O prof Vahan também fez extenso trabalho de preparação para a campanha durante sua pró-reitoria, em todos os sentidos exceto a elaboração de um programa de gestão baseado numa reflexão explícita sobre a universidade. Pela lógica devem ter o maior número de votos nas consultas.

A única parte democrática do processo é a escolha do reitor pelo governador do estado, que foi eleito e tem a responsabilidade de cuidar da coisa pública. As fases anteriores versam predominantemente sobre a defesa de interesses corporativos. A opção do governador, caso a diferença entre o apoio recebido pelas 3 chapas da lista tríplice não seja decisiva, pode depender das incógnitas à qual me referi acima: o risco de aparelhamento da USP, e o risco de fracasso de propostas de melhoria, medidos em comparação com o risco de ir tocando as coisas sem correr riscos, como se o resto do mundo também estivesse parado.

03 dezembro 2013

Hierarquia da ocupação do espaço viário público em S Paulo

1 - No topo da hierarquia estão os carros estacionados. Porque o automóvel traz em si a noção de propriedade, quiçá riqueza, e mesmo entrando ou saindo de uma garagem carrega em si uma dignidade superior aos outros elementos que disputam espaço nas ruas e calçadas.

2 - Em seguida vêm os carros em movimento. Porque transporta motorista, talvez um passageiro, possivelmente de classe C ou D, e a própria movimentação sugere a noção do trabalho manual ou contas a pagar, então o automóvel ao se deslocar não partilha da mesma dignidade social que teria se permanecesse parado. A prioridade pública deve sempre se orientar no sentido de enobrecer os estacionamentos, mas a fluidez automotiva segue-se em importância.

3 - O caminhão, veículo imponente que transporta cargas e riquezas, ocupa um lugar especial nas ruas e calçadas, por seu torque, peso, e macheza. Seu poder de destruição nas mãos dos motoristas mais aloprados é indiscutível. É certo que muitos são antigos e de baixo valor, mas são justamente esses que quando funcionam emitem grossa fumaça preta; quando quebram, impávidos colossos, atrapalham o trânsito, demonstrando sempre a superioridade da máquina sobre o homem. Saiam do caminho.

4 - Um pouco abaixo encontra-se o dogue, especialmente se conduzido por funcionário uniformizado. Porque a posse do cachorro, enquanto animal, configura uma forma de riqueza, à qual abrem-se alas em sinal de respeito à propriedade.

5 - O elemento neutro da ruas é o pedestre, que pode ser tolerado, exceto quando atrapalha a fluidez veicular, caso no qual pode e deve ser atropelado, tanto o que atravessa as ruas com o sinal aberto como o que o faz no sinal fechado, por questão de princípio. Mas enquanto se mantém em seu devido lugar o transeunte, se for vítima de assédio motorizado, o é pela condição de negro, pobre, velho, mulher, estudante, deficiente, cego, homossexual, baiano, ou pela profissão materna, não pelo pedestrianismo em si.

6 - Abaixo do pedestre encontra-se o coletivo. É importante tomar todas as medidas necessárias para obstaculizar o movimento dessa aberração onde um único bem material é compartilhado por dezenas de elementos de posição social por suposto inferior. Sempre que possível através de medidas administrativas, mas se necessário por obstrução, com o devido cuidado de evitar dano à pintura do automóvel.

7 - A motocicleta, embora não deixe de ser uma forma de propriedade taxável e censitária, ocupa uma posição mais baixa do que o coletivo, já que apresenta menos risco à integridade da funilaria. Pode parecer contraditório dado que muitas exigem alto poder aquisitivo, mas no dia a dia do trânsito pode ser difícil distinguir entre uma BMW importada e um veículo de entrega, então a ocasional destruição de uma motocicleta é aceitável contanto que sirva de lição para os motoqueiros porventura sobreviventes.

8 - O mais reles ocupante de uma via é sem dúvida a bicicleta: barata e rápida. O ciclismo, mesmo que não remunerado, não deixa de ser uma forma de trabalho físico, que subverte a ordem social na medida em que a bicicleta se desloca com maior velocidade do que veículos de valor muito superior. O ciclista deve ser coibido a ferro e a fogo.

É controverso o status atual da cada vez mais rara carroça.

02 dezembro 2013

Fechantes da USP

Hoje a entrada da USP estava novamente fechada por manifestantes. Fechar os portões é a represália dos estudantes que não estudam, dos trabalhadores que não trabalham, e dos professores que não professam contra aqueles que querem fazer seus deveres - o alvo principal dos fechantes são os menos endinheirados, que usam transporte coletivo e precisam terminar a faculdade para trabalharem.

O que permite e alimenta esses fechamentos é a falta de 2 coisas: falta de diálogo entre a universidade e os estudantes, e falta de camburão. O fato é que a administração trata do mesmo modo os alunos que querem estudar e os arruaceiros: com soberba indiferença, sem diálogo nem lei. A apatia da maioria silenciosa é compreensível.

Felizmente vim a pé, não me atrapalhou muito, só não dava para esperar o circular. Até aproveitei o passeio: atravessei as obras de embaralhamento e substituição dos passeios da praça do relógio, sem dúvida a menos prioritária das obras concebíveis para o campus do Butantã, e acho que entendi a estratégia política da atual reitoria. Como não há reeleição, tudo se resume a garantir sua reputação para a posteridade.

A gestão atual vai levar tanto mais vantagem em comparação com a gestão seguinte quanto mais desastrosa for a situação financeira que ela deixar. Daí a ânsia de fazer obras de pouca relevância, que  complicam a situação futura sem deixar benefícios que a universidade possa aproveitar. É uma estratégia familiar para quem acompanha a atuação do Partido Republicano nos Estados Unidos. Pode chamar de contraparte situacionista ao "quanto pior melhor" leninista-oposicionista.

No Brasil, em geral os políticos buscam o lucro financeiro imediato, ou, no caso dos mais ideológicos, querem se eternizar no poder, então esse tipo de gastança em forma de bomba-relógio é menos comum do que a corrupção pura e simples ou do que o aparelhamento do estado com funcionários pouco produtivos para a sociedade.

De qualquer modo, o candidato de oposição que seja escolhido reitor vai ter muito trabalho; se for de situação, contra toda a lógica e bom senso, ao menos vamos poder rir da tragédia alheia.

26 novembro 2013

Professora negra da USP sofre ofensa racista no Restaurante Dueto no Butantã

Professora negra da USP sofre ofensa racista em restaurante de São Paulo:

http://t.co/DGFLpBkQRB http://mariafro.com/2013/11/26/professora-negra-da-usp-e-assediada-e-humilhada-no-restaurante-dueto/

O agressor é o próprio dono do Restaurante Dueto, também conhecido como "restaurante do holandês", que fica na Vila Indiana, perto da USP. Estou divulgando por ser ex-frequentador.

Meu receio diz respeito aos prezados colegas que vão lá. Se houver algum que não vê problema em continuar frequentando, eu prefiro não saber, porque mesmo não indo no almoço, não tenho como evitar continuar convivendo com eles.

Bom, não posso resolver todos os problemas, nem comprar todas as brigas do mundo. Então divulgo, esperando que cada um saiba fazer o que é certo.

20 novembro 2013

Escritório de corrupção com divisão de engenharia de grande qualidade técnica

Engenheiro confirma: Siemens é escritório de corrupção com divisão de engenharia de grande qualidade técnica. O governo do estado teve preferência técnica pelas empresas com competência estabelecida, inclusive a Siemens.

Que a Siemens ofereceu suborno para o governo de S Paulo mas mesmo assim perdeu um concorrência, nós já sabíamos de outras reportagens. Falta confirmar porque resolveram "denunciar" tudo agora, já que a tal denúncia só incrimina a eles mesmos. Para descobrir, a pergunta óbvia é: a quem beneficia?

A resposta também óbvia é que o PT tem interesse em denúncias contra o governo do PSDB, mesmo que inconsistentes, mesmo que o conteúdo da denúncia ponha a culpa em outros grupos - o fato é que a maioria do eleitorado e da imprensa não tem a capacidade ética e intelectual de distinguir se uma denúncia indica culpa ou inocência, então sempre vale a pena jogar merda no ventilador próximo ao inimigo. Em troca, a Siemens ganha uns contratos menores, na Bahia por exemplo. Mas essa hipótese ainda precisa ser confirmada. Minha aposta é que em breve aparece a confirmação.

19 novembro 2013

Diálogo no twitter, aprendi muito

“@gugachacra: Algumas universidades européias começam a ser chamadas de fábricas de desempregados”

Comentário relevante sobre situação muito grave.

“@mtmiterhof: @gugachacra é injusto por na conta das universidades a burrice do austericídio. A culpa é da Alemanha... como sempre.”

Política econômica da Europa é muito ruim, mas afirmação é preconceituosa e exagerada.

“@mtmiterhof: @gugachacra ainda dizem que o Brasil não se desenvolve porque a educação é ruim. A geração mais bem preparada da Espanha está desempregada.”

Achei esse comentário estranho e respondi.

“@pait: @mtmiterhof @gugachacra Mas é verdade, o Brasil não cresce porque a educação é ruim. A Espanha é um caso diferente.”

“@pait: @mtmiterhof @gugachacra O tweet que respondi contém uma falácia elementar. @mtmiterhof: pense e identifique.”

Pensando talvez que se tratava de um estudante incauto. Cacoete de professor, querer corrigir.

“@mtmiterhof: @pait o Brasil não é diferente da Espanha.”

Fantástica afirmação.

“@pait: @mtmiterhof Circunstâncias completamente diferentes. Espanha alto desemprego, inflação nula.”

Óbvio, sem mencionar diferenças mais fundamentais.

“@mtmiterhof: @pait Igual é q não é a educação boa ou ruim que explica o crescimento. Mas o contrario: a renda alta/baixa explica a boa educação boa/ruim.”

Educação seria um bem de luxo para abastados? Quem será que pensa assim?

“@pait: @mtmiterhof Talvez. Porém não são afirmações incompatíveis. Baixa educação no Brasil é maior obstáculo ao aumento da produtividade.”

Fato indiscutível para qualquer um que tenha familiaridade, mesmo que indireta, com o quotidiano de uma fábrica, obra, ou negócio qualquer.

“@mtmiterhof: @pait não é bem assim. Um mexicano ao cruzar a fronteira eleva sua produtividade em 4 ou 5 vezes.”

Mais um argumento fantástico. E daí? O que isso importa para a educação e economia do Brasil?

“@pait: @mtmiterhof Esse argumento não contraria a afirmação de que a maior barreira ao crescimento econômico do Brasil é a educação fraca.”

Mas é, como qualquer pessoa com a minima experiência na vida real sabe.

“@mtmiterhof: @pait contraria, sim, pois mostra que educação não é uma grande barreira ao aumento de produtividade e ao crescimento...”

Mais ou menos nesse momento percebi que o gajo trabalha no BNDEs e escreve na Folha. Qual a correlação disso com a falta de interesse em educação?

“@mtmiterhof: @pait ...um mesmo trabalhador mexicano mal educado é mais produtivo numa fábrica americana. isso se chama mudança estrutural...”

Então começo a entender porque o governo não vê muita urgência em investir em infra-estrutura. É mais vantajoso gastar em esquemas mirabolantes de gastos públicos e distribuição de recursos para empresários favoritos.

“@mtmiterhof: @pait ..p/ promovê-la tem q investir, algo induzido pelo crescimento, q por sua vez depende d demanda (gasto público e distribuição d renda)”

Quer dizer, investimento é consequência do crescimento, que por sua vez é consequência do gasto público? Mais um argumento de trás para frente, mesmo que no caso esteja sendo feito em causa própria.

“@pait: @mtmiterhof Quando migra o trabalhador está usando toda a infra do novo país, inclusive as habilidades da sociedade como um todo, que...”

“@pait: @mtmiterhof ...não estavam disponíveis no país original.”

“@pait: @mtmiterhof E a mudança estrutural mais fundamental é a preparação para o trabalho, que se faz pela educação.”

Parece óbvio: o trabalhador mexicano é mais produtivo nos Estados Unidos porque têm mais capital à disposição.

“@pait: @mtmiterhof Crescimento depende de demanda e de produção. Na Espanha falta demanda; no Brasil falta produção.” 

Condições diferentes, explicações diferentes. Para mim é óbvio.

“@mtmiterhof: @pait discordo. quem puxa o fio da meada é a demanda.”

Mas para outros um país numa situação diametralmente oposta serve de argumento para fazer o que dá vontade. Uma lei de Say ao contrário: a demanda cria sua própria produção. Difícil de acreditar que alguém que já trabalhou na vida acredite nisso.

“@mtmiterhof: @pait discordo de novo. educação é mais resultado do que causa. estamos andando em círculos. Abordarei o tema na coluna da semana que vem.”

Me cheira a argumento por autoridade: o Partido me botou para escrever na Folha, e o jornal teve que engolir para não perder acesso a fontes oficiais, portanto todos devem me escutar embevecidamente.

“@pait: @mtmiterhof Sua afirmação não tem apoio na teoria, nem nos fatos, nem no bom senso. Parece puramente ideológica.”

“@pait: @mtmiterhof Para um aluno, diria que é necessário estudar com mais afinco e fazer o dever de casa. Você é maior e vacinado, não vou discutir”

Perdi o respeito. Apelou à hierarquia, vamos ver quem tem maior patente.

“@pait: @mtmiterhof Pensando bem, você me convenceu. Você lê, escreve, deve ter estudado muito, e ao fazer seu trabalho....”

“@pait: @mtmiterhof ...não indica ter a menor noção de como funciona um negócio e muito menos uma economia. Educação é irrelevante mesmo.”

Mas algumas horas depois, pensando com meus botões, me convenci. Educação e estudo são irrelevantes mesmo. Qual a qualidade que o trabalho de quem pensa assim pode ter?

14 novembro 2013

Denmark Day na Poli-USP

Ontem houve um evento de divulgação de oportunidades em empresas e universidades da Dinamarca aqui na Poli. O evento era direcionado para estudantes, dei uma passada rápida por curiosidade. A divulgação interna não foi muito boa, o que é compreensível considerando o número de vezes que cada email sobre falta de luz, falha na telefonia, fechamento de rua, cerimônia de encerramento de prazo, e farol aceso tem que ser reenviado. Depois tive uma reunião com alunos, mencionei o evento, então foi útil.

Nos tempos de antanho quem queria obter informações sobre estudar fora do Brasil era visto com uma certa desconfiança, precisava pedir autorizações com firma reconhecida para acessar bibliotecas e catálogos. Bolsas então, já existiam, nos Estados Unidos embora raramente na Europa, mas quem conhecia negava. Hoje os escandinavos vêm para cá fazer propaganda das oportunidades. O Brasil mudou, e para melhor. A Europa também, ao menos os mais avançados entre os bárbaros. Felizmente ainda não fiquei velho demais para sentir alguma inveja das oportunidades que os jovens têm hoje, e sabem aproveitar.

Sendo o evento sobre a Dinamarca, sempre dá uma sensação agradável. O embaixador falou, brevemente, que os dinamarqueses se sentem encabulados em falar bem deles mesmos então preferiu mostrar um vídeo com brasileiras que estudaram lá dizendo que é o melhor país do mundo. Estão certas.

Só deu pena no final do dia ao ver o carro do embaixador parado num engarrafamento-monstro na saída da Usp - a pé, consegui sair bem mais rápido, quem precisava transportar o automóvel não tinha alternativa. Mas trânsito, corredores de ônibus, ficam para outro post.


10 novembro 2013

Açaí (continuação)

O Açaí Frooty Natural fabricado Spice Com. e Ind. de Alimentos tem uma consistência que lembra neve, ou raspadinha de gelo, menos agradável do que o Açaí DeMarchi, que estou usando como referência. O sabor é menos marcante e fica ofuscado por um forte aroma de guaraná idêntico ao natural, no dizer do rótulo. O conteúdo específico de carboidratos, proteínas, gorduras, e fibras sugere uma diluição significativa, o que explicaria as observações qualitativas, se bem que não tenho confiança nos números apresentados no rótulo da DeMarchi.

O Açaí Qualitá distribuído pelo Pão de Açúcar traz informação nutricional quase idêntica ao Açaí Frooty, e é industrializado na mesma fábrica, aqui soletrada como SP ICE (diria que essa 2a forma melhor descreve o produto). O exemplar que experimentei tinha porém consistência e sabor superiores, embora ainda não comparáveis com o açaí de referência. Isso sugere controle de qualidade irregular.

Recomendação: escolha o Açaí + Guaraná Açaí Sport DeMarchi; ou alternativamente o Açaí com Guaraná Tribal Açaí Orgânico Sambazon, conforme o teste do mês passado.

08 novembro 2013

Imitação é a forma mais sincera do panegírico

O novo programa da chapa Zago-Vahan para a reitoria da Usp diz: "estimularemos a reforma da legislação pertinente para flexibilizar e modernizar currículos e a mobilidade de estudantes". Fazer uma grande modernização do ensino de graduação na USP, como propõem, é uma direção nova, e correta, para os pró-reitores de pesquisa e de pós-graduação, que contam no currículo a experiência anterior nas presidências no CNPq e no IPT. Embora a proposta ainda não especifique ações e prioridades, a atitude encomiástica de seguir a proposta do Prof Cardoso, flexibilização da graduação, é louvável. (Pergunte ao Butija o que é um panegírico.)

A flexibilização dos currículos começou em 1986 com a resolução 3045 do Prof Goldemberg; foi resistida bravamente pelas unidades e departamentos, apesar dos esforços de raros administradores como a pró-reitora de graduação Ada Pellegrini Grinover, durante a gestão do Prof Marcovitch; foi introduzida no curso de Automação & Controle da Engenharia Elétrica em 1995; foi aprovada na nova estrutura curricular da Escola Politécnica, embora sua implementação continue sendo sabotada pelos interesses dos departamentos. Será que agora pega na USP?




06 novembro 2013

Cobertura do debate dos candidatos a reitor da USP

“@pait: Zago lista coisas que devem mudar na Usp: graduação, carreiras, gestão, burocra... Não diz quais mudanças fará. Modernização, o que é?”

“@pait: Vanderlei lista politécnicos que conheceu e homenageia. Passa a homenagear sua vice e a si próprio. Vai pensar em propostas para graduação.”

“@pait: Cardoso feliz que os outros candidatos adotaram suas propostas para graduação e transparência. Conta coisas que fez pela graduação na Poli.”

“@pait: Cardoso defende flexibilização do ensino, novo currículo de graduação aprovados pela Poli, laboratório de inovação, cursos novos, noturno.”

“@pait: Cardoso lista outras iniciativas suas em graduação, inovação, gestão, cultura, e extensão na Poli. Promete expandir para a USP toda.”

“@pait: Hélio elogia Poli e Cardoso, apoia curso noturno de engenharia, mudanças curriculares na Poli.”

“@pait: Hélio lista experiência da candidata a vice e sua própria, sem detalhar ações específicas. Sugere imitar iniciativas da Politécnica.”

“@pait: Hélio menciona em termos genéricos que coisas foram feitas e outras ainda devem ser continuadas. Alerta para situação financeira precária. Hélio defende quotas.”

Funcionário pedem que candidatos sejam mais específicos sobre suas propostas, e fazem solicitações específicas sobre carreira. Professor contesta que talentos sejam bem selecionados por quotas para escolas públicas sem melhorar escola pública.

Perguntei por email para o prof Hélio: "O senhor é economista experiente, reconhecido, que ocupou altos cargos na administração da universidade, e nos conta que a situação financeira da universidade é periclitante. Gostaria de saber em qual ponto das últimas gestões o vice-reitor e os pró-reitores tomaram conhecimento que a universidade estava praticando uma gestão imprudente dos recursos públicos." Aguardo resposta.

Hélio dá respostas gerais para as perguntas específicas. Cardoso promete mais transparência na administração, critica administração atual, não acha fácil atingir metas de quotas e inclusão sem prejudicar qualidade; USP deve apoiar mais os alunos do ensino médio. Vanderlei afirma que fundamento da sua candidatura é a continuidade das últimas duas gestões, pede que confiem na astúcia dele para fazer os pequenos ajustes necessários, sem maiores inovações, conta anedotas folclóricas. Zago diz que universidade precisa inovar, cumprimenta quem já fez mudanças, mas não diz quais; critica vestibular mas elogia Fuvest, diz que é preciso discutir, discutir, discutir, não diz suas propostas; o problema central não é prédios nem pesquisa, é a graduação que deve estar no centro. "Quem tem 100 prioridades não tem nenhuma", diz Zago; concordo.

Aluna conta que veio de escola pública, entrou no vestibular, pergunta sobre violência contra a mulher na USP, estupros na Poli, e sobre acesso de minorias à USP.

Zago começa dizendo que que violência contra mulheres é subcaso da questão de segurança geral no campus. (Suspiros da audiência.) Depois passa a generalidades sobre cultura e barbárie. Volta para a tese que é uma questão de geral de segurança, não apresenta propostas. Não defende quotas mas diz que deve haver ações, não diz quais. Critica a pergunta pouco precisa. Vanderlei diz que já foi prefeito da USP e aprendeu sobre iluminação e segurança. A favor das câmeras e das lâmpadas e da guarda universitária e da polícia militar. Cardoso defende controle de acesso aos prédios, critica falha de segurança inaceitável, assume que universidade falhou em sua responsabilidade. Cumprir decisões do conselho universitário quanto a quotas, embora a universidade não seja capaz de resolver todos os problemas sociais. Hélio defende critérios étnicos no vestibular, elogia a iluminação do estacionamento da FEA, colocação de catracas na reitoria, e sua experiência administrativa.

Comentário: nenhum dos candidatos parece ter a menor noção de que a violência contra as alunas é frequente em festas e outras atividades estudantis. Isso sugere que os candidatos não conversam o suficiente com os estudantes.

As perguntas feitas pela internet não serão respondidas durante o debate. A minha fica aqui no blog. Professor pergunta sobre avaliação de atividades de graduação na carreira acadêmica, e sobre invasões à reitoria.

Hélio afirma que atividades de ensino não são consideradas na carreira docente e que práticas não democráticas ficaram corriqueiras na vida universitária. Cardoso: ensino, pesquisa, e atividades de cultura devem ser pesadas em concursos de contratação e progressão. Ninguém ensina sem saber aprender, então pesquisa é importante, mas outras atividades devem ser formalmente consideradas. Violência chegou a níveis altos, não se faz democracia com marreta, a minoria de violentos não é representativa. Vanderlei diz que crise atual com os estudantes não é fato isolado, é crise sistêmica, se agravou nos últimos anos (nas administrações que ele pretende continuar), cita discussões teóricas na Filosofia sobre black blocks, melhor caminho é trabalho de prevenção, atrair lideranças estudantis que aceitam discutir de forma democrática, afirma que segmentos violentos estão em grande parte na sua unidade, a Filosofia. Avaliar só por produção de paper não dá, mas a discussão é difícil e a profa Sueli faz partes de comissões que ainda não sabem o que fazer.

Zago diz que vai fazer proposta muito diferente: reconhecer que universidade é muito heterogênea, que as pessoas têm perfis diferentes, não misturar indivíduos que dão contribuição excelente como educadores com os que transferem conhecimentos para a sociedade com os pesquisadores. Diz que Harvard considera 3 perfis diferentes de professor (comentário: nunca ouvi falar desses perfis). Agressividade: porque? A maioria é silenciosa porque nós nos afastamos do diálogo com a maioria. Falta diálogo durante o ano todo. Se nunca nos preocupamos com o diálogo, na hora da invasão já é tarde. Falta de entusiasmo pela vida universitária e de participação é a causa da passividade da maioria silenciosa não-violenta. (Excelente resposta. Faltou dizer quem e como vai começar o diálogo.)

Vanderlei reforça que seu website reitera suas propostas de continuar as políticas das 2 últimas gestões. Cardoso diz que na Poli há diálogo permanente com estudantes, conflitos foram mínimos, precisamos ser tolerantes, o diálogo foi perfeito nos últimos 4 anos na Poli (acho que com um certo otimismo), vai fazer o mesmo na USP, garante que minimizará os conflitos. Hélio elogia a USP em generalidades, exceto o equilíbrio financeiro que precisa ser restabelecido e procedimentos arcaicos que contribuem para conflitos.

Perguntas da internet não serão lidas. Fim do debate.


03 novembro 2013

Os donos do poder na USP

Quando comecei a dar aulas na USP nos anos 1990, a Escola Politécnica era dominada pela ideia do engenheiro que dava aulas. Não que os dirigentes da Escola fossem necessariamente engenheiros de destaque, ou mesmo que dessem aulas. Porque a universidade já tinha passado por um processo de profissionalização e de burocratização - a figura dos engenheiros profissionais e dos professores "amadores" era mais presente no imaginário politécnico do que entre os dirigentes.

Menos presentes ainda eram os pesquisadores. Porque a ideia de pesquisa e inovação na engenharia ainda era remota. Vivíamos um complexo de vira-lata, pelo qual cabia ao engenheiro brasileiro seguir ordens, e no máximo copiar o que já existia lá fora com algumas décadas de atraso. Os donos do poder se orgulhavam de subir na carreira sem nunca terem escrito um paper; ou de fazerem pirataria e engenharia reversa. A luta pelo poder exigia dedicação total, incompatível com a pesquisa ou ensino - se bem que os poderosos davam um jeito de se autoconferirem honrarias acadêmica pelas atividades às quais nem sempre tinham se dedicado. Aliás escapar à carga didática sempre foi uma das motivações da busca pelos cargos.

O estamento burocrático usava esse conceito do engenheiro que dava aulas para resistir à modernização da escola de engenharia. Porque pressões havia. O corpo docente estava se renovando, com exposição às universidades internacionais. A inovação se fazia necessária pelo esgotamento do esquema da auto-suficiência tecnológica - o desastre completo que foi a reserva de mercado para informática fica como exemplo perfeito mas não único. E as sucessivas crises econômicas levavam os estudantes a questionarem o modelo de ensino moldado para atender com precisão milimétrica as necessidades do mercado de trabalho, só que da geração anterior.

Hoje a Escola Politécnica, como parte da USP, avançou muito na direção de tornar-se uma universidade de pesquisa. O estamento burocrático da universidade incorporou a publicação de papers como objetivo fundamental da academia. Em proveito próprio, é necessário dizer. A pesquisa interessa enquanto pode ser quantificada, mensurada, e usada como medida para distribuição de pequenos favores e meias-entradas. Estes por sua vezes servem de moeda de troca para subir na carreira universitária e ocupar cargos. O que entra nos relatórios de pesquisa é a engenharia de Lattes do CNPq e Qualis da CAPES. O conteúdo da pesquisa enquanto inovação, seja para a ciência, seja para benefício da sociedade, muitas vezes fica perdido, e é o que menos importa para a contabilidade acadêmica de publicações. A salamização da ciência, as auto-citações, até o auto-plágio e eventuais fraudes, evitar isso importa menos do que a quantificação - pretensamente objetiva - da pesquisa científica. Pena - temos excelentes cientistas, e um sistema que não sabe distinguir eles dos picaretas.

O estamento se renovou. Mudou de ideias, aparentemente. Os donos do poder são outras pessoas. Mas os métodos continuam os mesmos, inclusive na auto-premiação, a maior das caricaturas. E as consequências para o ensino dos futuros engenheiros também. A demanda por mais pesquisa na universidade acabou tomando uma nova dimensão, além da imaginação.
Witness Mr. Henry Bemis, a bookish little man whose passion is the printed page. In just a moment, Mr. Bemis will have a world all to himself... without anyone. The best laid plans of mice and men... and Henry Bemis... the small man in the glasses who wanted nothing but time to do his research... in the Twilight Zone.

01 novembro 2013

Aumento do IPTU

O argumento do prefeito Haddad a favor do aumento do IPTU é transparente e direto: o tributo é a contraparte dos benefícios dados pela cidade aos paulistanos, e deve ser pago com alegria. Os mais de 11 milhões de pessoas que moram na cidade concordam que a vida na metrópole é desejável - tanto que a população da cidade continua a crescer - e não sei de quem discorde de que é necessário melhorar os serviços públicos.

Os argumentos contrários são mais nebulosos. Um é que existe muita corrupção na cidade e portanto não devemos pagar os impostos. Que existe desperdício e corrupção não há dúvida; essa semana mesmo a prefeitura desbaratou uma quadrilha que as administrações anteriores não tinham conseguido reprimir. Financiar inadequadamente a prefeitura, e assim piorar a qualidade dos serviços públicos, seria uma resposta contraproducente, consistindo em punir o cidadão pelos crimes e erros dos bandidos.

Outros dizem que o aumento é abusivo. Respeitando a lógica do mercado e da livre-iniciativa, ao aumentos dos valores dos imóveis indicam que S Paulo está trazendo benefícios econômicos crescentes para seus moradores. Por outro lado, o ponto fraco da cidade são os serviços públicos, que são financiados com dinheiro de impostos. Então o argumento de que o aumento é abusivo fica prejudicado.

Finalmente podem dizer que é melhor deixar o dinheiro no bolso do contribuinte do que dar para a ineficiente prefeitura. Em tese é um argumento que tem mérito - as pessoas gastam melhor o próprio dinheiro do que o dos outros. Só que os investimentos que S Paulo precisa são em transporte coletivo, educação, e segurança pública. Na prática, é difícil imaginar como o paulistano vai melhorar a qualidade de vida na cidade com mais dinheiro para comprar carro, ir ao restaurante, e reformar ou mudar de apartamento. Enquanto indivíduos e empresas não fizerem os gastos necessários para melhorar os serviços públicos na cidade, a alternativa é pagar impostos, mesmo que eficiência da prefeitura deixe a desejar.

Já o argumento dos vereadores da oposição consciente é razoável: eles não confiam na capacidade do partido que comanda a prefeitura gerir os recursos adicionais, e portanto votaram contra. É coerente, e fico satisfeito com o voto do meu vereador, Gilberto Natalini. Naturalmente os vereadores do PT discordam e votaram a favor. Fizeram papel de palhaço os eleitores que botaram na câmara uns representantes de partidecos sem eira nem beira tipo Pros e PP, que não são nem contra nem a favor de nada exceto ganhar uma boquinha. Conviver com esses eleitores é melhor que as alternativas, então continua valendo a recomendação de voto distrital. Daí talvez até os mais imbecis se lembrem de quem elegeram.

28 outubro 2013

Não está homologado

O Banco do Brasil informa que o OS X Mavericks "não está homologado" para uso do BB via internet. Informa, mas não pela internet - o pessoal que atende o telefone do suporte técnico é prestativo e bem educado, mas não têm nada a dizer.

O software já está disponível para desenvolvedores desde junho. Tempo mais que suficiente para fazer o que era necessário - praticamente nada, porque o sistema do banco roda em Java e não precisa ser recompilado. A única insegurança é que o usuário tem que permitir ao banco executar programas em sua máquina de maneira insegura. Ou seja, o sistema funciona igual, o risco não mudou, e a ameaça continua sendo do banco contra o cliente. Mesmo assim, eles não deixam usar. Mais do que mera falta de respeito pelo cliente, são os donos do poder atrapalhando a vida do cidadão.

É uma falta de respeito do Brasil para consigo próprio.

26 outubro 2013

Se há alguém a quem ainda não ofendi, peço desculpas.

Para quem perguntou de onde vem: dizem que Brahms despediu-se de uma festa ou cerimônia com essa frase. Improvável que tenha sido ele o originador da frase, mas é coerente com a imagem carrancuda que ele se divertia em projetar - apesar de ser uma personalidade com outros lados bem diversos. Como disse Stravinsky, artistas menores imitam, grandes artistas roubam (na verdade nem ele, nem Picasso, mas ambos poderiam ter dito). Então a frase é do Brahms. Não me acusem de tentar roubar.

25 outubro 2013

Acho que já citei o professor Waneck aqui

Mas como não sei se alguém chegou a ler, vou dar uma de velho caseiro e repetir:
São aqueles que não sabem álgebra. Entraram na universidade pela porta dos fundos, sem passar no vestibular. Perante os físicos, são técnicos; perante os engenheiros, são cientistas. São os camaleões do mundo moderno: mudam de cor, para não serem devorados.

22 outubro 2013

Proposta de currículo de engenharia elétrica para a Poli baseado na EC3 e inspirado na Caltech

Prezados colegas,

Atendendo a vários pedidos, escrevi abaixo uma proposta de currículo para os 3 primeiros anos de engenharia elétrica. As bases da proposta são as seguintes:
1 - A estrutura curricular da EC3 já aprovada pela Escola Politécnica;
2 - O currículo da Caltech;
3 - Os conteúdos tradicionalmente enfatizados em engenharia elétrica na Poli.

Porque o currículo da Caltech? Recentemente está em moda prestar atenção aos rankings de universidades globais. A Caltech é a número um. Naturalmente os rankings relativos não indicam uma diferença de absoluta e precisa de qualidade, e devem ser tomados apenas como um indicativo impreciso. Mas de qualquer forma o curso da Caltech é excelente, e o currículo é representativo das melhores universidades americanas, que costumam dominar as posições de destaque em todas as avaliações. Assim sendo, se vamos nos inspirar em alguma outra instituição, que seja numa das melhores do mundo.

A estrutura curricular da EC3 já aprovada pela Congregação da Poli e um currículo semelhante ao da Caltech são perfeitamente compatíveis. É necessário tomar alguns cuidados:
1 - o curso da Caltech é quadrimestral, e não semestral;
2 - nossos currículos incluem mais horas em sala de aula (ao menos para os alunos com assiduidade próxima a 100%, como costuma ser o hábito nas universidades americanas, até porque a carga horária não é excessiva);
3 - nossos laboratórios geralmente são organizados como disciplinas separadas dos cursos dados em salas de aula; e
4 - algumas disciplinas são estudadas mais a fundo aqui na Poli (por exemplo, conversão eletromecânica de energia e guias de ondas).

O currículo proposto abaixo contempla essas diferenças de ênfase e de procedimentos, sem se afastar das diretrizes da EC3 adotadas pela Escola Politécnica.

Por outro lado, o currículo atualmente em discussão para a engenharia elétrica não é compatível nem com a EC3, nem com as diretrizes da Caltech. O motivo é o excesso de disciplinas obrigatórias, chegando a 8 na maioria dos semestres. Isso dificulta, e na maioria dos semestres impede, que o aluno busque disciplinas optativas fora da grade horária, o que é um dos pontos fundamentais da EC3. Mais do que obter inspiração numa prática bem sucedida e mundialmente reconhecida, o maior cuidado na elaboração da proposta abaixo foi eliminar os vícios da proposta atualmente sob discussão na elétrica, a saber:
1 - excesso de carga horária, restringindo a dedicação dos estudantes a cada assunto;
2 - excesso de detalhamento de conteúdos, que inevitavelmente vão se tornar repetitivos;
3 - falta de disciplinas de projetos;
4 - falta de espaço para eletivas dentro da engenharia elétrica ou em outras áreas;
5 - inflexibilidade da grade, que dificulta o desenvolvimento da diversidade de interesses e habilidades entre o corpo discente;
6 - atenção excessiva ao ensino em sala de aula como forma exclusiva de transmissão de conhecimentos, com prejuízo de outras formas de aprendizado igualmente válidas e quiçá mais eficazes; e
7 - inevitáveis problemas operacionais que irão surgir quando tentarmos montar grades horárias com excesso de disciplinas.

Na esperança de contribuir positivamente para o futuro do ensino na Escola Politécnica, cordialmente submeto o esboço de currículo abaixo para a apreciação dos colegas.

Grato pela atenção, Felipe Pait

19 outubro 2013

O armarinho fechou

A avó me levava para comprar agulha e linha.
Um dia desses, voltei ao armarinho.
Caía, lembro, uma garoa de antanho.
Agora também vendia brinquedos.
Comprei um baralho de mico preto,
Pedi um bloco de batalha naval.
Comprar o quê, um dedal?
Já tenho os tchotchkes da vó.
O neto da dona ficou com o armarinho.
Ninguém mais compra botões.
Por isso, encerrar o negócio?
Ficou de procurar a batalha naval.
Acho que não encontrou.

18 outubro 2013

Rastreamento de ônibus

A Sptrans oferece um sistema de rastreamento de ônibus pela internet, Olhovivo. Sistemas desse tipo podem melhorar muito o transporte coletivo, e são usados com sucesso em lugares com transporte ainda mais problemático do que S Paulo. Saber onde o ônibus está economiza tempo e facilita muito o uso da condução. Esse sistema merece ser mais divulgado!

Mas ainda há problemas. O acesso ao sistema, através de uma página da rede pesada, tem bugs e é lento e irregular. A forma mais útil de acesso seria através de app para celular, mas as que testei não facilitam significativamente o uso.

Um problema mais sério é que o sistema nem sempre funciona. A atualização é esporádica; enquanto estava tentando usar o sistema ficou mais de meia hora sem atualizar. As informações sobre localização e horários de ônibus estavam erradas. Pior, o Olhovivo exibiu informações fictícias sobre veículos inexistentes.

(Ou isso, ou então a internet do celular TIM pifou ao mesmo tempo em que vários carros da linha quebraram no meio do trajeto. Na dúvida, escrevi o texto dia 27 de setembro mas não postei antes de confirmar. Parte dos problemas foram causados pelo cancelamento da linha Metrô V Madalena - Rio Pequeno, de propriedade da falida viação Oak Tree. Me parece que o dia 27 de setembro foi o último da operação da linha, que aparentemente foi cancelada devido ao excesso de passageiros. Hoje testei novamente e constatei os mesmo problemas - acesso lento e irregular, interface problemática e bugada, informações errôneas. Por sorte um colega passou de carro pelo ponto, me viu, e ofereceu carona. Agradeço, X!)

15 outubro 2013

Complete and definitive appreciation of Fama's work by Mandelbrot

The complete and definitive appreciation of Fama's now Nobel Prize-winning contribution was given by Mandelbrot in his memoir "The Fractalist", page 226. It reads:
This was the same Fama who, in 1964, submitted a thesis subtitled "A Test of Mandelbrot's Stable Paretian Hypothesis." He believed that successive price changes were statistically independent. I had to convince him that I had never claimed independence and that he was in fact testing a much weaker hypothesis-the one that was first expounded in Bachelier's 1900 Ph.D. thesis and had become known as the martingale hypothesis. Fama conceded, corrected his earlier assumptions, replaced the mysterious label "martingale" with "efficient market," and built his career on becoming its champion. This hypothesis is convenient indeed, and it is, on occasion, useful as a first approximation or illustration. But on more careful examination, it failed to be verified-and for being its herald, Fama should receive neither blame nor credit.

14 outubro 2013

Not even wrong

The work of Lars Hansen, who just won a Noble prize, is absolutely ridiculous. What he does it take the well-known theory of linear control systems, strip it of the understanding that control engineers have, and use it in economics, where it does not apply. This method gives nonsensical predictions, because the crucial economic phenomena are nonlinear in essence.

For comparison with the other winners, Shiller's work is useful and good. Fama's at least achieves wrongness. I understand that he does that fluently.

13 outubro 2013

Blog gulaguista

Alguém indicou um artigo num blog gulaguista chamado DCM. Botei um comentário dizendo que achava bom saber que os leitores do blog eram a favor de polícia política para crimes de opinião. Daí o dono do blog caiu em cima de mim, e me proibiu de responder as críticas dele. Meus comentários não são publicados e não tenho permissão de postar.

Por exemplo, escrevi que o blog insulta os muçulmanos xiitas comparando eles com políticos de Brasília, mas o blogueiro cortou. Isso é bom para identificarmos mais um site de tendência fascista. Ainda bem que eles ainda não estão no poder!

Açaí

Degustação comparativa: Açaí + Guaraná Açaí Sport DeMarchi; e Açaí com Guaraná Tribal Açaí Orgânico Sambazon.

Parecem ser marcas de qualidade, facilmente encontráveis no Pão de Açúcar. Os ingredientes são semelhantes, o Tribal Açaí leva vantagem por conter menos ingredientes que só a indústria de alimentos sabe o que são e ninguém sabe que efeito têm. Se você por cautela ou ideologia evita produtos químicos com nome impronunciável, prefira a Sambazon, uma empresa nova californiana-brasileira.

O Açaí Sport tem um sabor mais forte de açaí, e uma consistência um pouquinho mais macia. É melhor para comer direto, por exemplo em cima de cereal granola. Ambos podem ser apreciados sem bater no liquidificador. 

A informação nutricional deles é incompatível: as proporções de carboidratos, gordura, e proteínas são inconsistentes. Descontando a possibilidade remota de que algum dos aditivos tenha muita proteína ou gordura, ao menos um dos rótulos está errado. Já o conteúdo energético sugere que o Açaí Tribal contém mais água, o que é compatível com a análise feita usando os sofisticadíssimos sensores físicos e químicos da minha língua. (A contagem de calorias é uma superstição imbecil sem qualquer relação com o processo biológico de alimentação, mas serve para indicar, ou confirmar, o que entra numa comida industrial.)

Minha preferência é pelo produto da DeMarchi, tradicional indústria de alimentos paulista. Numa próxima oportunidade testo outras marcas.

12 outubro 2013

Greve recursiva

Como ocorre a cada primavera, os bancários passaram 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve...

Segundo o sindicato, para vencer a intransigência dos bancos foi fundamental a mobilização da categoria, que esse ano estava lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve...

Os objetivos da greve foram plenamente atingidos, com o pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve lutando pelo pagamento dos 23 dias em greve...