Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

23 agosto 2014

Numa discussão no Facebook....

... sobre política externa brasileira de repente vem um cara e diz que o problema é que os judeus controlam a mídia e por isso Israel não tem direito a existir. Não respondi para esse sujeito, mas copio aqui o algumas coisas que escrevi para meus amigos que estavam na discussão, que continuou em diversas direções.

[a política externa brasileira com relação a Israel] é a mesma desde 1948, com exceção do voto do Geisel contra Israel em 1975, e da chamada do embaixador somada à não condenação do Hamas no mês passado. Há também a questão do apoio ocasional do Itamaraty e a amizade de setores do PT com as piores ditaduras do mundo árabe e islâmico, que tem relação, mesmo que indireta, com a questão entre Israel e Palestina. Fora esses episódios, é uma posição que qualificaria o Brasil a interlocutor mais ou menos isento e aceitável por moderados de ambos os lados, justamente por ser inaceitável para radicais de cada lado. Não é inatacável, mas é razoável. A cada escorregão do Itamaraty ou do governo, porém, o Brasil volta para o andar mais baixo da escada.

...sustento e reforço minha opinião anterior de que a causa única do problema [entre Israel e Palestina] é o pensamento como o do comentário logo acima, baseado nos protocolos dos sábios de sion ou em outra literatura ainda mais maldosa. Uma discussão sobre política externa brasileira virou uma oportunidade para desligitimizar Israel, apesar do non sequitur em relação aos comentários anteriores. Note como é difícil para Israel chegar num acordo quando os supostos amigos dos palestinos pensam assim, e como esse pensamento facilita a ação de países que apoiam e se beneficiam tanto do Hamas quanto do ISIS e conseguem controlar Gaza através do Hamas.

Minha opinião é essa: o conflito entre Israel e Palestina é um horror, e para acabar deve haver um estado palestino. 2 estados para 2 povos. Pronto. Qual o obstáculo? Do lado palestino, os grupos terroristas que fazem de tudo para sabotar qualquer possibilidade de um acordo. Do lado israelense, o medo. Medo de quê? Volte uns pontos atrás aqui nesse post. Era um discussão sobre política exterior brasileira onde petistas e anti-petistas tinham apresentado suas opiniões e até certo ponto concordado. Daí veio o [o sujeito supre-citado] com um post desligitimizando o Estado de Israel com base num suposto controle judaico da mídia mundial. Isso é muito comum. Quando o israelense vê esse argumento, ele pensa: "Não existe mudança da minha política que vá conseguir paz. Não são as decisões do meu governo que ele está criticando, é minha existência. O outro lado não vai parar enquanto não conseguir fazer conosco o que está fazendo com os cristãos no Iraque. A única coisa que pode ser feita contra esse argumento é usar a força." E por causa desse tipo de argumento, que é bastante comum, é muito mais difícil chegar a um acordo.

...existem setores radicais em Israel, e setores que aceitariam acordos em qualquer situação razoável. E no meio uma maioria que aceitaria sem grandes obstáculos - exceto pelo medo do terrorismo. Esse centrão é que é o cerne da questão, não os radicais. Infelizmente o Hamas reforça os receios do centrão. Não adianta apontar para os lados radicais, tem que entender as considerações dos centrões de cada lado.

O voto do Geisel teve a ver com suborno dos países do Golfo a um regime que não tinha exatamente um compromisso muito firme com ideologias democráticas nem com a honestidade. Foi uma exceção na política brasileira, como foi exceção a resposta desproporcional do Itamaraty marcoauréliogarcista. Acho que podemos, mesmo sem concordar com a medida de proporcionalidade, concordar que o objetivo é constituir um estado palestino viável e em paz.

....de fato o Itamaraty desde o início do governo do PT tem sido bastante tolerante com todo tipo de regime tirânico ou sanguinário. De maneira geral a política externa do Brasil tende aos "panos quentes", mas exemplos de omissão como no caso do Irã ou Síria abusam da boa vontade. Por outro lado os "panos quentes" coloca o Brasil, salvo ocasionais deslizes, numa posição razoável no caso Israel-Palestina, onde de certa forma ambos tem razão, e de outra forma ambos erram. Pelo 3o lado, neutralidade excessiva faz a política externa brasileira meio irrelevante - uma cadeira permanente no Conselho de Segurança para se abster sempre? Da minha parte ponho a culpa dos "deslizes" na troika Celso Amorim-Marco Aurélio Garcia-Samuel Pinheiro Guimarães.

Acho que concordamos que a situação do povo de Gaza e em menor escala da Cisjordânia é triste, especialmente se comparada com as possibilidades da época de Oslo nos anos 1990. Acho que também dá para concordar que fora 2 estados para 2 povos coexistindo em paz não há caminho para remediar essa injustiça. Discordamos ao menos em parte sobre os obstáculos para resolver. Você indica as ações de Israel. Não vou dizer que não é parte do problema, muito menos defender cada ação israelense, mas enfatizar que em Israel há uma enorme diversidade de opiniões e o governo poderia mudar de atitude quando o povo assim indicar. Porque não faz? Na minha opinião, por causa das ações do auto-entitulados "amigos dos Gaza", aqueles que querem luta contra a ocupação até a última gota de sangue palestino. Confortáveis nas capitais do Golfo, nas burocras diplomáticas, nas ruas de Paris e Londres, ou nas torres de marfim da academia, para eles quanto pior melhor. Quanto mais mortes em Gaza, mais à vontade se sentem para criticar e esconderem suas próprias atrocidades preferidas. Quando esses grupos revelam que a bandeira deles não é contra ações do estado de Israel, mas contra a existência do estado ou do povo judeu, daí a maioria israelense entende que não há concessões que podem levar à paz, mas apenas a mais guerras mais sangrentas.

É isso. Quem estava gritando sobre Gaza um ano atrás, sem procurar uma resolução pacífica, enquanto o conflito na Síria era 1000 vezes maior tem que assumir a responsabilidade de os conflitos agora terem envolvido Gaza.
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