Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

12 junho 2009

Para quem se aborrece com os editoriais comedidos e bundões da grande imprensa, segue uma troca de mensagens entre eu e e um aluno da Usp.

On 11 Jun 2009, at 5:26 PM, Humberto S. Shiromoto wrote:
Ola professor,

Como esta o senhor? Aqui da Italia, acompanhei os protestos que aconteceram, na USP. Qual sao os reais motivos da greve? E qual o motivo para a Adusp querer a saida da reitora?

Abraços,

Humberto S. Shiromoto
Minha resposta:

Estou em sabático esse semestre, então não posso falar do que vi pessoalmente sobre essa greve. Vou escrever com base no que li, nas greves anteriores que assisti, e em opiniões formadas em mais de um quarto de século de Usp.

O sindicato dos funcionários é chamado de radical, mesmo por membros dos partidos políticos mais radicais. A verdade é pior que isso. A bandeira principal deles nessa greve é a volta de um tal de Claudionor, ex-funcionário da Usp que é partidário do atentado violento ao pudor (acho que formalmente ele foi demitido por causa de outra condenação criminal, das sucessivas acusações de estupro ele escapa através da intimidação das vítimas). Não tenho simpatia por eles porque além de defenderem o estupro eles tem o costume de distribuírem panfletos a favor do extermínio do povo judeu. Então se quiser pode dizer que minha opinião tem viés pessoal. O fato é que os funcionários da Usp não estão nem ligando. Eles não sabem nem querem distinguir se o tal sindicato está pedindo aumento de salário ou fazendo baderna. A maioria ou trabalha e não quer se meter nessas atividades dos sindicatos, ou acha a greve uma boa oportunidade para tirar férias remuneradas.

O sindicato dos professores é apenas ligeiramente menos aloprado. Tem uns caras como o Coggiola que defendem qualquer espécie de tirano ou genocida, tipo o pessoal que saiu da linha Moscou para a linha chinesa quando o partidão comunista denunciou os crimes do Stalin, depois foi para a "linha albanesa" quando terminaram as execuções em massa do Mao, e ficou órfão depois da queda do muro. Você vai dizer que eu vir com essa conversa de stalinismo e trotskismo numa discussão sobre greve na Usp é absurdo e eu concordo, mas é assim que eles pensam. Se você conversar com o pessoal do sindicato eles vão dizer que a conversa sobre salário é apenas para mobilizar as massas apáticas. No mínimo soltam que é para prejudicar eleitoralmente o governador. A questão de salário nem secundária é.

Mas dessa greve até o sindicato dos professores ia ficar de fora, tão malucos os grevistas estavam. Até que a reitora chamou a polícia. Se a Usp tivesse impeachment, ela já teria saído na outra greve, quando teve comportamento ridículo. Primeiro temos que lembrar que essa incompetente foi posta pela "direita" e pela "esquerda" da Usp para evitar que algum cara sério e trabalhador virasse reitor. Explico: os malufistas e quercistas são os que privatizaram a Usp e não querem ninguém dizendo que eles têm que dar aula ou fazer algo produtivo para a sociedade. Exemplos de professores que ganham dinheiro com trabalho dos outros mas nunca fazem coisa que presta há muitos - como eu já estou queimado mesmo, vou escrever os nomes do Massola e do Galvão da elétrica para você saber de que tipo estou falando. A esquerda são os stalinistas e trotkistas a que me referi antes, é o pessoal que vive numa torre de marfim enganando os alunos com esse besteirol ideológico, e não quer nenhum contato com a realidade além do salariozinho de funcionário público e a aposentadoria precoce que o povo paulista tanto se esforça para pagar. Nos conselhos e congregações com frequência as duas alas se juntam para evitar a subida de gente amiga do trabalho.

O fato é que se alguém na reitoria quisesse trabalhar era só entrar na reitoria e trabalhar, parando no caminho para conversar com os alunos, que seria muito mais importante do que aquelas papeladas inúteis que eles ficam despachando de um lado para o outro. O que é que os grevistas iam fazer, bater na reitora? Improvável, mas se levantassem a mão, desmoralizava-se a greve. Falta alguém com um mínimo de coragem física, daquela que a gente aprende no jardim da infância, e com um pouco de boa vontade para dialogar com os alunos. Agora que a reitora fez o jogo dos radicais, chamou a polícia, ajudou a promover cenas de violência, ela tem mesmo que renunciar. No desconhecimento da universidade ela fez o jogo dos facínoras. Na inaptidão para o diálogo chamou a polícia para conversar com os alunos, lembrando os piores capítulos da história da Usp. Renúncia já!

A questão dos alunos é mais complexa. Bem como os professores e os funcionários, a maioria não liga para essa história de greve nem tem paciência para ir nas assembleias, onde as decisões são sempre tomadas por minorias ínfimas. Só que os alunos se revoltam com razão. A universidade atende aos alunos muito mal, com cursos rígidos e sem ligação com o mundo real da ciência e do trabalho, uma burocracia asfixiante, e um número excessivo de funcionários e professores desleixados. Na revolta muitos estudantes dão ouvidos aos megafones, palavras de ordem, e discursos inflamados, sem perceber que essas pessoas e discursos são justamente o problema, não a solução. Os alunos são jovens e se exaltam com facilidade. Os bem intencionados e mal informados são liderados pelos bem informados e mal intencionados. A maioria fica de fora.

Vou terminar com uma coisa positiva. Vi numa foto de Clayton de Souza/AE reproduzida acima que os alunos arrombaram o cadeado da torre do relógio. Na greve anterior subi lá em cima, acho que pus uma foto no blog. Todo aluno deveria ter a oportunidade de subir na torre do relógio para ver como as coisas embaixo ficam pequeninhas lá de cima. Nessa época do ano com tempo seco a vista é espetacular. O exercício também não ia fazer mal à pança. Precisava de uma reformazinha para dar uma segurança aceitável aos alpinistas, mas valeria o gasto. As demonstrações dos alunos têm lado libertário e anárquico muito positivo, que não deve ser confundido com as manobras dos fascistas dos sindicatos.
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