Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

24 maio 2012

Carta antiga: a burocra e a cesta

Fui buscar um arquivo no meu computador e o Spotlight abriu por acaso a carta abaixo, enviada à Sociedade Brasileira de Automática em resposta a uma solicitação vinda de órgãos federais para que os associados identificassem uma "cesta de problemas" que dificultam o trabalho da comunidade científica no Brasil. Tendo a carta recebido uma resposta ignorativa, reproduzo o texto aqui.
Prezado Colega, 
O maior problema para a pesquisa científica no Brasil é a burocracia em suas diversas formas. A burocracia é um obstáculo para a liberdade e criatividade nas ciências. Como exemplos das formas como a burocracia atrapalha o trabalho dos cientistas cito:
- As taxas e outras barreiras alfandegárias custam tempo e dinheiro, e nos põem em em posição de atraso e desvantagem em relação aos pesquisadores em países onde esses entraves são menores. Estas barreiras não trazem nenhum benefício para o país, apenas para as burocracias que vivem delas. 
- As burocracias internas das universidades impedem que os alunos busquem os conhecimentos de acordo com seus interesses e que os professores ofereçam cursos de acordo com seus conhecimentos. Os rígidos currículos regulamentados pelo Ministério da Educação, pelos conselhos profissionais, e pelas próprias universidades ficam obsoletos mais rápido do que eles são modificados pelas lerdas burocracias destas instituições. Com isso a diversidade de formação e de interesses de nossos estudantes e professores não é valorizada, e o mal uso dos talentos faz com que a pesquisa nacional fique prejudicada em relação às de países onde as instituições de ensino superior são mais ágeis e flexíveis. 
- A burocracia nas contratações e promoções dentro das universidades dificulta a absorção dos profissionais mais competentes e eleva os burocratas a posições de influência. A política de recursos humanos é feita por critérios formalistas que só privilegiam aqueles mais afeitos à politicagem, e solapa o ânimo dos cientistas mais competentes e dedicados ao ensino e à pesquisa. 
As instituições de pesquisa e ensino superior não parecem ser capazes de se fazerem menos burocráticas por si sós. Me parece que é necessária uma ação de cima para baixo, vinda do executivo da União, orientada pelos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, para a desburocratização das instituições científicas. 
Sinceramente, Felipe Pait

13 maio 2012

Peça do presidente da Capes no pasqüim de SP

Vergonhosa a peça que o presidente da Capes aprontou na Folha (exige assinatura). Resumo: S Paulo ruim, governo federal (depois de 2002) bom. Em todos os níveis, ensino básico, médio, técnico, superior, e pós-graduação, tudo que está errado é culpa do governo de S Paulo, e as ações federais (a partir de 2002) só não dão resultados ainda mais maravilhosos por culpa de S Paulo. Sobrou até para a Fapesp, que financia a maior parte da pesquisa no Brasil.

Leia-se: tucano mau, petista bom - partidarizando tudo que tem a ver com a educação no Brasil. O artigo saiu num jornal paulistano em época de eleições, por pura coincidência é claro.

Torturando um número, ele confessa qualquer coisa. A manipulação é tão acintosa que levanta a questão: será que os sistemas de avaliação do ensino básico e superior também estão sendo fraudados com objetivo de fazer propaganda partidária? Ou será que a manipulação ainda está restrita a artigos de opinião nesse pasqüim de SP?

07 maio 2012

Jogo dos erros: "Bearish on Brazil"

A Foreign Affairs publicou um artigo "Bearish on Brazil" (paywall). Um artigo robótico escrito automaticamente, cheio de chavões e erros. Vamos contar alguns? Minha contribuição segue, reproduzindo o que escrevi para um amigo.

No meu entendimento a análise é completamente errada. O autor acredita que o real está valorizado ou por causa dos juros altos, ou por causa do preço das commodities. Nenhuma dessas explicações se sustenta. São fatores relevantes, mas não explicam o câmbio atual. Nos últimos anos a taxa de juros baixou, e as commodities flutuaram, mas o real subiu.

O principal motivo da valorização do real é a falta de bons investimentos nos países ricos, e a percepção dos investidores que o Brasil é comparativamente um bom país para investir. O motivo para acreditar que investimentos no Brasil vão ter retorno é que o mercado consumidor está crescendo e que a produção pode crescer se os gargalos da infra-estrutura forem resolvidos.

Por outro lado, caso uma queda nos preços das commodities leve à desvalorização do real, a manufatura brasileira ficará mais competitiva. De qualquer forma, o preço das commodities só vai despencar se a economia chinesa sofrer uma pane. E se a economia chinesa sofrer uma pane, o argumento de que o Brasil erra em não copiar a China fica prejudicado, não é?

O fenômeno da desindustrialização que artigo menciona é uma invenção, ao que tudo indica. A manufatura não está crescendo à mesma taxa que os setores que mais crescem, o que não significa que esteja desaparecendo. O argumento do artigo é contraditório: a indústria não cresce porque a indústria cresce tanto que faltam engenheiros. Outro disparate do tipo "it's so crowded that no one goes there anymore" é a frase "As a result, although unemployment is now at a decade-low six percent, businesses complain that they have no choice but to hire unqualified applicants." É justamente isso: a economia está crescendo tanto que os gargalos ficam evidentes.

No meio dessa análise disparatada há alguns pontos válidos e conhecidos: o Brasil precisa investir mais em educação, a burocracia brasileira atrapalha, os impostos são complexos demais, o protecionismo dificulta a inovação, etc. São pontos que não têm relação com o argumento principal, um besteirol que amontoa slogans da direita e da esquerda sem qualquer referência à realidade ou à ciência econômica.

Vale a pena ler o artigo com cuidado para procurar mais erros e verificar como existe gente escrevendo bobagem por aí.

04 maio 2012

Becápi da Midia

O objetivo desse post é fazer uma pergunta à Srta. Googlenice Becápi da Midia, mas aceito boas respostas de qualquer comentarista.

Vou ficar algumas semanas usando um "outro computador", que não é o meu principal. O que costumo fazer é botar todos os emails e arquivos que crio em outro computador em folders especiais, e depois transferir via nuvem ou disco externo. O método se baseia em designar um "computador principal", que sempre tem backups confiáveis. Dá certo, só que na volta fica tudo fora da organização. Então ou gasto tempo organizando, ou para aqueles itens tenho que confiar no Spotlight para encontrar.

Uma alternativa é colocar tudo no Dropbox. Daí quando eu trocar de computador os arquivos se sincronizam. Além do Dropbox, existe o Microsoft Skydrive e o Google Drive, mais baratos, mas ainda menos testados.

Um receio com Dropbox é o seguinte, me digam se é bobagem. Se eu tiver, digamos, 50GB na nuvem, o Dropbox vai sincronizando. Se ele fizer uma besteira e apagar arquivos antigos, eu não vou perceber, porque não uso regularmente. O erro vai se propagar pelas outras máquinas, e quando eu perceber os arquivos já se foram. Seria difícil, talvez impossível, recuperar. Esse receio vem de uma má experiência com o Mozy. Pode haver outros riscos: só os paranoicos sobrevivem.

Outra alternativa é ter um disco externo no bolso com todos os arquivos importantes, e considerar esse como "oficial". Esse é o que tem que ter backup. Quando for usar outro computador qualquer, conecto esse disco e trabalho em cima dele. O disco interno fica só para boot e coisas extras. Parece um pouco desajeitada, muito manual e pouco automática, mas talvez seja a melhor. Se houvesse um disco pequeno e barato, alimentado pelo bus Thunderbolt, acho que eu escolheria essa alternativa.