Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

08 dezembro 2012

O fractalista

Recentemente li o memorial de Mandelbrot. Devo começar dizendo que nunca acompanhei muito o trabalho do matemático, em parte porque uma vez ouvi uma conferência dele em Yale e não aproveitei muita coisa. Mas recentemente esperando a condução li 2 artigos nas Notices of the AMS sobre a vida e matemática do Mandelbrot. E me dei conta que um conjunto de importância no estudo do antigo problema de Lur'e tem dimensão fractal. Então o presente do livro do próprio Mandelbrot foi bem recebido.

Uma coisa que falta no tal memorial (sim, estou usando o termo com ironia) é matemática. Além disso, trechos do texto são repetitivos. E ele gosta de name dropping. Diverte, mas não é de bom gosto. Como disse Nimzovich, autopromoção é aceitável só quando o reconhecimento merecido é injustamente negado. Mas podemos dizer que o reconhecimento a Mandelbrot foi tardio, embora abundante, então a autopromoção não chega a desmoralizar.  O maior interesse foi ler o autor contando sua vida. Me chamaram a atenção alguns pontos.

Mandelbrot nunca se adaptou à rotina acadêmica, recebeu tenure aos 75 anos (sempre há esperança). Passou a maior parte da carreira na IBM Research Labs. Os laboratórios de pesquisa pura de grandes empresas, Bell Labs, Xerox PARC, Phillips, são hoje uma vaga saudade. Existiram numa época de grandes monopólios aceitos pela sociedade. Os bons, especialmente nos Estados Unidos, eram muito bons. Os ruins, por exemplo no Brasil, eram muito ruins. Mas isso é outra conversa. Na universidade de hoje, Mandelbrot ficaria ainda menos confortável. Os laboratórios fazem falta.

Ele tinha uma péssima impressão dos bourbakistas, o que criou atritos até com seu próprio tio, Szolem Mandelbrojt, um matemático de qualidade. Não estava de todo errado. O formalismo matemático faz sentido filosófico, é até útil, mas se sai de controle atrapalha a ciência e a educação. Não há motivo para deixar de estudar algo só porque não conseguimos provar teoremas completos. Nem para estudar algo só porque os teoremas se deixam provar e se transformar em publicações. Figuras ajudam o entendimento. Por outro lado, a informalidade atrapalha na aplicação das ideias da geometria fractal. Como dizia Amadeu Matsumura, desenhos não provam nada.

Acadêmicos que se saem mal das memórias são os economistas de Chicago. O solitário leitor saberá por que isso produz um sorriso nesse blogueiro. Eugene Fama, em particular, aparece como um pseudo-bourbakista da economia, sem o conhecimento matemático dos Bourbaki originais, nem a honestidade deles. Para ele o formalismo é apenas um instrumento de autopromoção. Diz Mandelbrot que a hipótese dos mercados eficientes é conveniente e às vezes útil, mas não se verifica; e Fama não merece nem o crédito nem a culpa de tê-la inventado, apenas de ter trocado seu nome. Como dizia o Prof Waneck....


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