Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

03 dezembro 2013

Hierarquia da ocupação do espaço viário público em S Paulo

1 - No topo da hierarquia estão os carros estacionados. Porque o automóvel traz em si a noção de propriedade, quiçá riqueza, e mesmo entrando ou saindo de uma garagem carrega em si uma dignidade superior aos outros elementos que disputam espaço nas ruas e calçadas.

2 - Em seguida vêm os carros em movimento. Porque transporta motorista, talvez um passageiro, possivelmente de classe C ou D, e a própria movimentação sugere a noção do trabalho manual ou contas a pagar, então o automóvel ao se deslocar não partilha da mesma dignidade social que teria se permanecesse parado. A prioridade pública deve sempre se orientar no sentido de enobrecer os estacionamentos, mas a fluidez automotiva segue-se em importância.

3 - O caminhão, veículo imponente que transporta cargas e riquezas, ocupa um lugar especial nas ruas e calçadas, por seu torque, peso, e macheza. Seu poder de destruição nas mãos dos motoristas mais aloprados é indiscutível. É certo que muitos são antigos e de baixo valor, mas são justamente esses que quando funcionam emitem grossa fumaça preta; quando quebram, impávidos colossos, atrapalham o trânsito, demonstrando sempre a superioridade da máquina sobre o homem. Saiam do caminho.

4 - Um pouco abaixo encontra-se o dogue, especialmente se conduzido por funcionário uniformizado. Porque a posse do cachorro, enquanto animal, configura uma forma de riqueza, à qual abrem-se alas em sinal de respeito à propriedade.

5 - O elemento neutro da ruas é o pedestre, que pode ser tolerado, exceto quando atrapalha a fluidez veicular, caso no qual pode e deve ser atropelado, tanto o que atravessa as ruas com o sinal aberto como o que o faz no sinal fechado, por questão de princípio. Mas enquanto se mantém em seu devido lugar o transeunte, se for vítima de assédio motorizado, o é pela condição de negro, pobre, velho, mulher, estudante, deficiente, cego, homossexual, baiano, ou pela profissão materna, não pelo pedestrianismo em si.

6 - Abaixo do pedestre encontra-se o coletivo. É importante tomar todas as medidas necessárias para obstaculizar o movimento dessa aberração onde um único bem material é compartilhado por dezenas de elementos de posição social por suposto inferior. Sempre que possível através de medidas administrativas, mas se necessário por obstrução, com o devido cuidado de evitar dano à pintura do automóvel.

7 - A motocicleta, embora não deixe de ser uma forma de propriedade taxável e censitária, ocupa uma posição mais baixa do que o coletivo, já que apresenta menos risco à integridade da funilaria. Pode parecer contraditório dado que muitas exigem alto poder aquisitivo, mas no dia a dia do trânsito pode ser difícil distinguir entre uma BMW importada e um veículo de entrega, então a ocasional destruição de uma motocicleta é aceitável contanto que sirva de lição para os motoqueiros porventura sobreviventes.

8 - O mais reles ocupante de uma via é sem dúvida a bicicleta: barata e rápida. O ciclismo, mesmo que não remunerado, não deixa de ser uma forma de trabalho físico, que subverte a ordem social na medida em que a bicicleta se desloca com maior velocidade do que veículos de valor muito superior. O ciclista deve ser coibido a ferro e a fogo.

É controverso o status atual da cada vez mais rara carroça.
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