Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

17 maio 2010

Reforma curricular na Poli

A Poli tem um espaço para discussão sobre reforma curricular, com vários itens e perguntas. Reproduzo aqui, para fins de arquivo e referência, o que escrevi em cada item.

1 Definir perfil do egresso desejado
Me parece que há um quase consenso de que os currículos da Poli deveriam ser mais flexíveis, evitando a especialização precoce. Cada estudante individualmente deve ter maior liberdade na escolha das disciplinas a cursar, e a especialização começar já antes do vestibular é um absurdo.

Fico muito satisfeito em ler aqui propostas que defendo há pelo menos 15 anos, e que nos conselhos e congregações caminham na base de uma passo para frente, dois para trás.

2 Maior permanência do aluno na escola
Sim. A formação não consiste apenas em sentar em sala de aula, e como dizem quase todos, o excesso de horas de aula semanais burocratiza e prejudica a relação entre estudante e universidade.

3 Evolução do Ensino Médio
O ensino médio é o que é. A Poli não tem recursos nem para pensar em mudar. Achar que vamos mudar o perfil dos alunos mudando as "nossas" regras do vestibular não chega nem a ser uma ilusão. Os bichos são heterogêneos, é uma fato com o qual temos que conviver.

A ideia de nivelar os alunos ensinando conteúdos idênticos para todos no primeiro ano desanima os mais preparados (que acham o biênio pouco desafiador) e os menos preparados (que sofrem para passar). O currículo inflexível e homogêneo dos primeiros anos é O motivo principal - eu diria o único motivo importante - pelo qual o biênio é tão pouco apreciado por alunos e professores.

4 Tecnologias Computacionais
Acho que não. Ainda existe um montão de provas, e até provas sem consulta. Lembrar fórmulas de memória é coisa do século 20. Hoje existe o google.

Mas é difícil mudar a forma de dar um curso, então cada professor vai mudando de ano para ano da forma como consegue. Nos cursos de 4o e 5o anos raramente dou provas, mas não saberia como fazer isso se estivesse ensinando cálculo ou circuitos elétricos para trocentos alunos.

5 Tratado de Bolonha / Países emergentes / USA
Os currículos da Poli são muito rígidos e especializados, e deixam de atender muitos dos interesses dos alunos. Além disso a especialização é precoce - começa antes do estudante ter qualquer contato com a Poli - e quase irreversível. A consequência é que muitos alunos se desencantam e vão levando o curso do jeito que dá, estudando o mínimo para passar, e perdem o vínculo com a engenharia. Essa perda é muito maior do que um ano a mais ou a menos de duração do curso - pessoalmente acho 5 anos apropriados.

Acho que a comparação com os Estados Unidos é mais apropriada do que com as escolas de elite francesas, porque os alunos brasileiros da mesma forma como os americanos tem formações muito heterogêneas.

6 Resolução do CONFEA-CREA no 1.010
Não me sinto capaz de dizer o que penso do CREA sem usar palavras de baixo calão. A resolução parece um documento burocrático que só pode contribuir para aumentar o poder da guilda do Crea, qualquer que seja o custo para os engenheiros ou para o desenvolvimento tecnológico do Brasil. O impacto só pode ser negativo.

7 A crescente internacionalização dos cursos da EPUSP
Concordo com os alunos: eles corretamente se acham bem preparados, e a Poli deve incentivar os intercâmbios.

8 O ingresso na EPUSP: atualmente as 7 entradas são assimétricas
NÃO! A opção no vestibular é um desastre pedagógico. Os alunos de 3o ano não tem nem as ferramentas nem a obrigação de conhecerem os detalhes das carreiras oferecidas pela Usp.

As opções dentro da Poli devem ser livres. Os estudantes devem poder mudar de opção no momento que quiserem. Nós professores é que temos que nos virar para ensinar o que os alunos querem aprender, não são os alunos que tem que se adequar às preferências de alocação da carga didática feitas pelos professores.

Pessoalmente, no ano em que aparecer pouca gente interessada em controle avançado ou laboratório de controle, quero ser convocado para dar aula de cálculo, circuitos elétricos, ou fundamentos da computação, de acordo com as necessidades dos estudantes e do contribuinte paulista que paga meu salário.

9 Os egressos da EPUSP: atualmente as 17 saídas são desbalanceadas
Grade horária em universidade séria só existe no Brasil, e não é jabuticaba. Alguns cursos exigem um número excessivo de horas de aula, com resultados perversos. Esses currículos devem ser reformados para que os estudantes tenham tempo para se dedicarem a cada assunto com a profundidade necessária. Essa discussão sobre a razão entre a carga horária dos vários cursos é artificial e contra-producente.

10 Valorização da graduação na EPUSP
É muito difícil avaliar o trabalho de professor, pois é uma avaliação subjetiva, que não cabe dentro de parâmetros numéricos e questionários burocráticos.

Quem dá aulas de uma disciplina eletiva recebe uma avaliação muito gráfica: a sala cheia ou vazia. A sala cheia de estudantes interessados é a melhor recompensa que um professor pode receber por sua dedicação ao ensino. Currículos mais flexíveis, com uma preponderância de disciplinas não obrigatórias, trariam grande retorno aos professores mais dedicados e motivados.

Na minha opinião é justamente por temer essa forma mais sincera de avaliação que os órgãos colegiados relutam em flexibilizar os currículos.

11 A importância da educação continuada
Dando liberdade para estudantes e professores aprenderem e ensinarem coisas interessantes, próximas às fronteiras da ciência e tecnologia e às demandas da sociedade. Desburocratização de currículos e conteúdos de cursos.

12 Empreendedorismo na formação do egresso
Curso de inovação obrigatório me parece um contra-senso. Se a Poli quer incentivar os estudantes a inovarem, o primeiro lugar é permitir que inovem nos estudos. O esquema "pré-requisito, pós-requisito, matéria, prova" não convida ao empreendedorismo.

13 O papel dos estágios profissionalizantes
Em geral os alunos se interessam por aulas instigantes. Quando o assunto não motiva, o estágio domina. Querer impedir um estudante de fazer um estágio e obrigar a fazer outro me parece impossível e inútil. A parte controlável (para usar jargão de teoria de controle) pela Poli são as aulas.

14 A ética como ponto focal na educação
Como diz o Prof Paul Jean, a ética se ensina pelo exemplo.

15 Conhecimentos adicionais desejáveis para os egressos
São centenas de alunos, centenas de formados por ano. Não dá para dizer o que cada um vai aproveitar melhor. Muito menos ensinar tudo que há de útil. O melhor é deixar cada aluno montar uma sequência de eletivas nas humanidades, de preferência aconselhado por um tutor. Pessoalmente eu aconselharia uma sequência de cursos de história com forte carga de redação em nível universitário, pois na minha opinião há muitos alunos que não se expressam por escrito num nível condizente com a formação técnica que têm. Mas cada estudante é diferente.

16 EAD
Os estudantes da Poli têm a oportunidade de aprender assuntos fascinantes da maneira mais eficiente e agradável possível - em aulas com excelentes professores. Sistemas como o Moodle facilitam o trabalho, movendo a parte administrativa offline a deixando a aula livre para a melhor parte, que é a discussão dos conteúdos.

Melhor é dar apoio para os professores utilizarem os melhores métodos sem muita ingerência administrativa.

17 Sugestões livres
A regente da Orquestra Sinfônica da USP, Lígia Amadio, se formou na Poli em 1985. A brilhante carreira dela é um argumento irrefutável a favor da maior flexibilidade e interdisciplinaridade dos cursos da Usp em geral.
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