Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

14 agosto 2012

O programa de governo do Haddad

O PT planeja redesenhar S Paulo descentralizando o desenvolvimento da cidade. Enquanto políticos e jornalistas discutem irrelevâncias, por exemplo se o projeto tem origem malufista, martista, ou neotucanista, e especialistas se entocaiam em suas especialidades, vamos pensar sobre os conceitos fundamentais do programa.

Para justificar grandes investimentos que rompem com o paradigma de planejamento urbano, em 1o lugar é necessário assumir que o transporte é a mais importante questão que a prefeitura deve abordar. Certamente existem questões mais relevantes para a cidade: educação, saúde, e segurança. Desperdiçando menos tempo no trânsito, produzindo mais e trabalhando menos, o cidadão teria recursos e tempo para investir nessas áreas. A educação, por exemplo, depende menos de gastos centralizados na prefeitura do que da soma dos esforços de estudantes, professores, e famílias. Em comparação, o paulistano perde horas em transporte, um problema que só pode ser resolvido com ação coletiva. Portanto essa justificativa está correta, exatamente porque reconhece que a prefeitura deve se concentrar nos problemas que não podem ser resolvidos individualmente.

Em 2o lugar, é importante verificar se a proposta de descentralização melhora o transporte na cidade. Podemos confiar nos autores do plano, ou pelo menos dar o benefício da dúvida, e considerar que o investimento em obras públicas terá retorno em termos da diminuição de horas de trabalho e lazer atualmente perdidas em transporte. Vamos anotar como ponto a ser corrigido que o plano enfatiza demais o transporte por carros e ônibus andando em ruas, que é ineficiente e insuficiente para o tamanho da cidade.

Finalmente, temos que saber se a oferta de subsídios e isenções ficais terá o efeito descentralizador desejado. Para isso, é necessário entender a causa da centralização da atividade econômica em S Paulo. Depois que a indústria praticamente saiu da cidade, as atividades não se concentram devido à localização de grandes empresas. A concentração vem de efeitos de rede. Um ator precisa residir em cidade com muitos teatros; e um teatro precisa apresentar peças em uma cidade com público grande e muitos atores. Da mesma forma, negócios na área financeira ou de software preferem se estabelecer em S Paulo porque os trabalhadores com experiência em finanças ou software estão por perto; e os trabalhadores moram onde estão os empregos.

A atividade econômica na cidade gira em torno dos setores de serviço mais sofisticados e especializados, e nos serviços para as pessoas que trabalham nessas áreas. A presença de uma rede de serviços é muito mais importantes para a localização dos negócios do que custos de aluguel ou impostos. Subsídios da prefeitura e renúncia fiscal vão ter um impacto mínimo sobre a localização dos negócios, porque as pessoas estão amarradas não a empresas específicas, mas à toda a rede de serviços relacionados. Uma família de advogados não vai se mudar inteira para o Cupecê atrás de um emprego em um banco, porque um emprego é uma coisa temporária, e o que atraiu essa família para S Paulo não é um emprego em uma organização, mas a variedade de empregos e serviços disponíveis na cidade inteira. Da mesma forma, o banco não vai se mudar para locais que não possuem as vantagens da rede de serviços de S Paulo, para longe de seus clientes e funcionários; e se o fizer, o tempo que eles perdem em transporte aumenta.

Subsídios e renúncia fiscal vão apenas desviar recursos que deveriam ser investidos em transporte rápido para milhões de pessoas, que necessita de uma ação coordenada do poder público. O projeto de descentralização está baseado num entendimento incorreto da dinâmica urbana e vai fracassar.
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