Atendendo a algumas respostas apreciativas e inúmeras ignorativas, aqui está......

26 novembro 2007

Opções no vestibular na Escola Politécnica

Contexto: os alunos que ingressarão na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo no próximo ano foram obrigados a optarem pelas diversas especialidades da engenharia já na inscrição para o exame vestibular, apesar de que é sabido e notório que os estudantes de colégio não tem informações nem maturidade para essa especialização precoce. Essa mudança em relação ao sistema anterior foi decidida numa reunião noturna da congregação da Poli e teve como base um conchavo político com o objetivo de salvar as aparências dos cursos de menor procura, especialmente engenharia civil e eletrotécnica. A engenharia elétrica, que habitualmente estava entre as mais procuradas, teve a menor procura entre os alunos que estavam optando sem conhecimento de causa. Como parte de uma longa e acalorada discussão por email entre professores de engenharia elétrica, enviei aos colegas uma carta que reproduzo abaixo.

Prezados colegas,

Na minha opinião estamos levantando pontos importantes em resposta aos números da FUVEST, porém uma parte das discussões não está acertando o alvo. O fato é que tentarmos informar os vestibulandos a respeito dos detalhes dos nossos cursos e opções não vai ser um trabalho eficaz. Primeiro porque o universo dos possíveis candidatos, os estudantes dos colégios, é grande demais para alcançarmos com o número de professores que temos, a grande maioria já muito atarefados com ensino, pesquisa, e projetos de engenharia. Em segundo lugar porque os vestibulandos estão demasiado preocupados com o próprio vestibular, e não têm tempo nem experiência suficientes para entenderem os detalhes do que acontece aqui dentro. Em que pese a brilhante consideração do Prof. Massola, não vai ser uma linha no formulário da FUVEST, seja em ordem alfabética ou cronológica, que vai informar os alunos de colégio adequadamente a respeito das atividades científicas e tecnológicas que ocorrem aqui dentro da Poli. E embora seja útil termos um bom conteúdo em nossas páginas na rede, em contraposição a informações burocráticas de interesse reduzido, isso também não vai ser a solução do problema.

Por outro lado, uma vez que os alunos ingressam na Poli e estão em contato direto com professores da USP, eles têm plenas condições de se informarem a respeito dos cursos, das pesquisas, e dos projetos que fazemos. E nós, com uma ou outra exceção de algum professor que talvez não freqüente sala de aula há décadas, temos todas as condições para transmitir nosso entusiasmo pelas diversas áreas da engenharia.

Por isso a ÚNICA SAÍDA para a situação na qual essa decisão irrefletida da congregação nos meteu é permitir que os alunos FAÇAM TRANSFERÊNCIA de um curso para outro após em qualquer momento após entrarem na Poli. A primeira justificativa é a dada acima: uma vez aqui dentro, os alunos têm a oportunidade de fazer uma escolha mais consciente, com o apoio dos professores quando sentirem a necessidade. A segunda justificativa é uma questão de eficiência: para o bom uso do dinheiro público é indispensável termos alunos nos cursos dentro dos quais eles terão as melhores expectativas de desenvolverem suas atividades profissionais. De outra forma, continuaremos com os problemas atuais, incluindo vagas ociosas, repetência, abandono de cursos e carreiras, alunos prestando vestibulares repetidos e demorando a se formar por terem "se enganado" as respeito de opções, e assim por diante.

A razão final para mim é a decisiva: temos a obrigação de respeitar a liberdade individual de cada aluno, futuro engenheiro e colega, de traçar seus caminhos profissionais. Na minha opinião esse argumento é eticamente irrefutável.

Explicitando, os alunos não estão aqui para servirem aos interesses profissionais ou corporativos do corpo docente, nem para justificarem nossas escolhas didáticas ou de pesquisa. Pelo contrário, somos nós que estamos aqui pagos pelo contribuinte de impostos para servir aos futuros engenheiros e contribuir para o desenvolvimento tecnológico do Estado de S Paulo. O Prof Jardini nos explica que, uma vez tendo colocado os vestibulandos nos cursos que queremos oferecer, seremos capazes de induzi-los a seguir carreiras profissionais nas áreas que são do nosso agrado. Talvez na finada União Soviética ou na Coréia do Norte esse argumento tivesse força, mas num país livre como o Brasil a falácia é evidente. A congregação da Escola Politécnica teve o poder de forçar os ingressantes a tomarem decisões prematuras quanto à escolha dos cursos, mas não tem meio de obrigar os alunos da Politécnica a estudarem em cursos para os quais estejam pouco motivados. Muito menos há como obrigar os engenheiros formados na Politécnica a rejeitarem ofertas de emprego em uma área ou outra que nós em nossa imensa experiência e sabedoria julgamos menos nobres.

Os alunos que julgarem sua escolha prematura como inadequada vão fazer o que puderem para remediar a situação. Uns vão prestar vestibular novamente, deixar vagas ociosas. A maioria provavelmente vai estudar o mínimo para passar nos cursos que não acharem motivantes, e fazer qualquer estágio que ofereça alguma perspectiva profissional ou uns trocados a mais. Todos nós professores que nos dedicamos ao ensino temos experiência com esse fenômeno profundamente desencorajador e humilhante do "abandono virtual" das salas de aula.

Para terminar, temos uma responsabilidade coletiva pela decisão disparatada tomada pela congregação e por suas conseqüências futuras. Uns por omissão, outros por distração, muitos por excesso de outras preocupações e responsabilidades, e com certeza alguns por colocarem seus interesses corporativistas à frente das suas responsabilidades como engenheiros, professores, e funcionários do estado. Os riscos trazidos pela situação que assim criamos eu vejo como uma oportunidade de melhoria do ensino na Poli em relação ao esquema vigente até agora. Basta que deixemos de lado propostas ineficazes e de pequeno alcance, bem como discussões menores sobre picuinhas, e aproveitemos a oportunidade para dar aos estudantes a possibilidade de LIVRE TRANSFERÊNCIA entre cursos e opções.

Estou torcendo para que a Poli fique à altura desse desafio!

Sinceramente,

Pait
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